ESPAÇO ABERTO - Reflexões sobre o batismo
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de janeiro de 2011
Dom Orlando Brandes 
Os brasileiros procuram batizar seus filhos e gostam de ter compadres, comadres e ganhar presentes. Esta religiosidade popular precisa ser evangelizada. Somos um povo batizado, mas não evangelizado. Somos batizados mas vivemos como pagãos, como os outros. Recebemos os sacramentos e não recebemos com o mesmo empenho o evangelho, a Palavra de Deus, a conversão. Somos um povo batizado não evangelizado.
Evangelizar os batizados é uma necessidade e uma urgência. João batizava nas águas, Jesus batizava no Espírito Santo. Ser batizado é mergulhar na vida de Jesus e assumir seus critérios, seus sentimentos, seu jeito de ser. Somos, pelo batismo, cristificados e por isso somos ''filhos no Filho'', filhos adotivos do Pai. Toda pessoa batizada deveria ter um relacionamento filial em relação a Deus. Esta filialidade está bem retratada no Pai-Nosso.
Um país de pessoas batizadas como é o caso do Brasil tem a obrigação de ser uma nação justa, fraterna, solidária. Pelo batismo somos elevados à dignidade de filhos de Deus. Isso requer de nós uma atitude filial em relação ao Pai e uma atitude fraternal para com os outros. O batismo faz da nação brasileira uma grande família. Como podem nossos irmãos passar fome, sofrer exclusões, viver uma vida desumana? O batismo nos leva à transformação social, ao bem comum, à superação da fome e da exclusão.
O batismo é um apelo à participação na vida da comunidade. Aprendemos que o batismo é a porta de entrada na Igreja e nela somos incorporados. A dignidade dos batizados é comum a todos os cristãos. Há na Igreja uma igualdade de dignidade. Pela graça do batismo somos sacerdotes, profetas e reis, povo sacerdotal, profético e real. Quanta dignidade e quanta responsabilidade.
A Igreja nos convoca a uma catequese batismal na ótica da iniciação cristã. É um apelo a uma mudança radical em relação ao batismo e à vida cristã. Entendemos por iniciação cristã um itinerário, um caminho que deve ser feito antes da celebração dos sacramentos. Este caminho é conhecido pelo nome de catecumenato.
O primeiro passo deste caminho é ajudar o catequizando a realizar um encontro vivo, existencial, experimental com Jesus Cristo. Desse encontro nasce o encantamento por Jesus, pelo evangelho, pelo reino. O batismo não é uma lei, uma obrigação, mas um encantamento, uma atração, uma fascinação por Jesus Cristo. O cristianismo não começa com uma lei, uma obrigação moral, uma grande filosofia, mas com um encontro pessoal com Jesus Cristo.
Iniciação cristã é uma questão de amizade com Jesus e seguimento do evangelho. Cativados e conquistados por Jesus, somos inseridos na comunidade, aprofundamos nossos conhecimentos bíblicos, celebramos com fervor e alegria e nos engajamos na missão evangelizadora. Isso tudo é ser batizado, é ser iniciado.
A iniciação cristã ajuda a superar a sacramentalização e a acomodação dos que foram batizados. Pelo caminho catecumenal o enfoque está vivência cristã e não apenas a cerimônia do batismo. A proposta da iniciação cristã é revolucionária, é o caminho concreto e profético que nos faz discípulos missionários. A iniciação nos leva a aceitar que Jesus é nossa felicidade, nossa prioridade, nosso tesouro. É pela iniciação cristã que teremos uma Igreja em estado permanente de missão cuja condição é o encontro com a Palavra de Deus. A Palavra é o coração de toda atividade eclesial. Batizar as pessoas sem evangelizá-las é perpetuar a pastoral da conservação.
Cresce entre nós a opção de não batizar mais as crianças. A decisão de se batizar, dizem, deve ser uma decisão de quem alcançou a maturidade. Numa sociedade secularizada raramente um adulto pede para ser batizado. Esta não é a melhor solução. A melhor opção está na iniciação cristã da família, dos pais, padrinhos e da comunidade.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


