A atual reunião da Alca nos permite reflexões. Percebe-se hoje um mercado comum (informal) na Ásia, não mais um conjunto de países exportadores, mas um continente integrado. Conforme o Bird, as exportações asiáticas para o Ocidente somaram, em 2001, US$ 770 bi, 12% do comércio mundial. O comércio intra-asiático representou, em 1975, 1% do comércio mundial e em 2002 aumentou para 6,5%. O comércio intra-europeu representou 24%, em 75, e 20% do comércio mundial, em 2002.
Segundo a ONU, a Ásia, com políticas que favorecem elevadas taxas de crescimento doméstico e graduação tecnológica, tem evolutiva participação dos manufaturados, empregos e exportações, e o Brasil entra no rol das nações em ''desindustrialização''. O ambiente de liberalização financeira e comercial faz empregos e produção manufatureira despencarem, além de provocar degradação tecnológica. Nos países asiáticos, o crescimento foi amparado pelos investimentos público (sobretudo em infra-estrutura) e privado.
As políticas de macroestabilização, mesmo bem sucedidas no controle da inflação, não produziram condições microeconômicas que levassem empresas a aumentar investimentos, expandir o setor industrial e elevar a produtividade para melhorar a renda per capita e tornar exportações mais competitivas, segundo o relatório da ONU.
Colocar a trajetória da dívida pública na rota de solvência para sinalizar a investidores que o Brasil é um país confiável, nos levou a um círculo vicioso. Nele, juros altos trazem mais dívida, que, por sua vez, fica maior e determina juros mais altos; ou seja, o superávit primário de 4,32% do PIB, ou R$66,1 bi, não é sustentável nem aritmética e nem socialmente. Uma carga tributária de 35% do PIB é cruel quando comparada à de outros países com renda per capita semelhante à do Brasil. Manter juros altos, cortar despesas e arrecadar mais, visando um orçamento equilibrado, nos fez acabar 2003 com uma dívida pública maior em R$ 32 bi, com um total de R$ 913 bi, ou 58,2% do PIB. Em 2002, este percentual era de 55,5%. Na Índia, a dívida pública equivale a 85% do PIB e o país foi elevado à categoria de ''investment trade''. Enquanto o Brasil gera superávit de 4,32% do PIB, a Índia, vice-campeã em crescimento no mundo (6%), registra déficit primário de 4,7%.
O superávit primário não sustentável de 4,32%, que determina pesada carga tributária e infra-estrutura precária, nos impossibilita de participar desta Alca de Bush. Ela é uma balança de dois movimentos: planejar a invasão e preparar a proteção. Políticas que permitam superar o viés contracionista, viabilizadas por uma diminuição no superávit, são urgentes. Assim como um arranjo macroeconômico com eficiente combinação entre superávit primário, taxas de juro e crescimento econômico. Caso contrário, é evidente que não só a Alca será impraticável, mas qualquer inserção soberana do Brasil no cenário internacional.
MARCOS DOMAKOSKI é presidente da Associação Comercial do Paraná

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