ESPAÇO ABERTO - Reeditando velhos momentos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 10 de março de 2004
Walmor Macarini 
Ora revela-se nela a sua porção divina, ora o seu componente profano. Em horas perdidas ela divaga, entre euforias interiores e lágrimas nunca explicadas, e contempla o universo. O Cavaleiro, que em era remota deixou-a em pranto à margem do caminho, observa-a, com encanto. Certa vez, guindando-a ao dorso de seu cavalo, com ela cavalgou por campos e pradarias, dormiu em sua companhia ao pé das cachoeiras, sem contar nem dias e nem noites. Cavalgou e cavalgou, ao encontro do nascer do sol, de retorno ao poente ou não necessariamente nessas direções. Seguiu guiado pelas emoções, e foi longe. Viveu um contínuo presente e assim experienciou a inexistência do tempo.
Ela, a um leve toque de sua vara de condão, transcende, monta numa estrela e visita a morada de origem, no parque das planíceis douradas. Mas, em dado momento precipita-se e se encanta com um cantar de cisne. O Cavaleiro não se surpreende. Acata, com certa contrariedade, os seus momentos difusos. Ele também já passou por tais vivências, circundou ao largo, distante dela. Esse foi o tempo em que ela mais o amou. Porque viver sob o domínio de uma certa insegurança a torna vigilante e mais cativa. Uma imprudência tirar-lhe essa insegurança, mas os incautos a cometeram.
A não ser quando ela empreende vôos altos e converte-se em foco de luz. É o seu sublime momento. É quando o Cavaleiro mais se encanta. Misto de fada e de bruxa. Quando em seu estado profano, ela se vale da estratégia da sedução, e teme perdê-la. Qual poção mágica que possa esvair-se e perder força. O Cavaleiro entende os anseios dela, embora com relutância, mas no fundo do íntimo deseja que ela os experimente todos, e se farte e se enfade. Qual abelha que vai extraindo de flor em flor o néctar, até exauri-las e exaurir-se a si própria.
A presença do Cavaleiro às vezes a inquieta. Talvez memórias daquele dia em que ele partiu rumo a terras distantes, e não mais retornou, até que a reencontrasse muito depois, ele e ela já com outras roupagens. Hoje, ela às vezes não percebe a presença dele mas pressente e sente quando ele está ausente. Remota nostalgia, sem explicação à luz do entendimento comum. Pessoas que se predestinaram ficar juntas nunca serão livres se o ego as mantiver separadas. O Cavaleiro sabe que irá reencontrá-la em sua porção mais sutil, no momento que haverá de ser. Para que assim se feche o círculo e a roda cesse de girar. Almas gêmeas temporariamente partidas mas geradas do mesmo ovo cósmico.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


