ESPAÇO ABERTO - Recados com puxão de orelha
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de novembro de 2012
Gaudêncio Torquato <br> <br> 
É natural que os competidores partidários procurem exibir seus troféus após a contenda eleitoral. Afinal, a competitividade interpartidária confere à política alto grau de importância na escala dos interesses nacionais.
Compreende-se, pois, que o PT se arvore em maior vencedor, ao argumento de que governará 27 milhões de eleitores a partir de 2013; que o PSB proclame ser o partido que mais cresceu porcentualmente; ou, ainda, que o PMDB desfralde a bandeira do maior número de cidades sob sua administração (1.031) e a segunda posição na soma eleitoral (23,1 milhões de votos). É até razoável a tese de que as oposições ganharam fôlego, com as expressivas vitórias do DEM e do PSDB. Da leitura mais atenta do quadro eleitoral, se pinça, porém, um conjunto de recados que partidos e líderes precisam ouvir e ponderar.
O pleito deste ano se despiu de arabescos que adornavam a liturgia no passado, particularmente os mantos festivos e os salamaleques de militantes dispostos a fazer vigílias cívicas por seus candidatos. Há uma explicação para o fato, a começar pelo redesenho das ruas. As multidões que acorriam aos eventos eleitorais, obedecendo ao sinal dos comandantes, refluíram, passando a se abrigar em grupos reunindo categorias profissionais. Sua participação no cenário político perdeu intensidade. Não se veem mais densos contingentes mobilizados para ouvir a peroração mofada de candidatos e cabos eleitorais. Ante um cenário social menos barulhento e conflituoso, os antigos trombeteiros das massas passaram a ter menos ouvidos para fazer ecoar seus surrados refrãos. A subtração das multidões tem, ainda, conexão com dois fenômenos pouco sensíveis ao faro dos nossos atores políticos: a autonomia decisória dos cidadãos e a emergência da micropolítica. O primeiro se ancora na expansão da racionalidade eleitoral e o segundo se amarra na árvore da pragmática política.
A cada pleito, o voto abandona o espaço emotivo para se refugiar no terreno da razão. O processo, lento e gradual, acompanha a dinâmica social. Noutra ponta, a cadeia de casos negativos - escândalos, denúncias, tramoias, corrupção -propicia o desencanto dos eleitores com a velha política. Partidos passam a ser substituídos por novos polos de referência. Os aglomerados populacionais, dispersos e anônimos, cedem lugar às comunidades regionais. O todo divide-se em partes. Forma-se, assim, uma base sobre a qual se assenta a autonomia cidadã, e essa é a alavanca que abre as opções eleitorais.
Tem diminuído, sensivelmente, a fila de eleitores que ainda obedecem aos comandos de caciques políticos. A organicidade social volta-se para a defesa do hábitat, onde a micropolítica estabelece um apreciável conjunto de demandas.
Exemplos de racionalidade e autonomia ocorreram em muitas frentes no pleito deste ano. Trata-se de um bem-aplicado puxão de orelhas que o eleitor dá na política embolorada. Outra sinalização da racionalidade é dada na área dos gêneros. As mulheres avançam no campo da administração municipal, conquistando 664 prefeituras. No rol de recados, há também o que indica o desejo de renovação. Perfis que encarnam mudança passam, agora, a povoar o mapa municipal.
Por último, distingue-se o eleitor descontente e indignado: ele se abstém, vota nulo ou em branco. E sabe separar alhos de bugalhos, eleição de mensalão ou de ''kit gay''. Acontece que a corrupção na esfera da representação bate em todos os entes partidários.
Como se sabe, a ordenação dos ciclos eleitorais é pedra fundamental no jogo de poder. Eis a analogia que Elias Canetti, autor de ''Massa e Poder'', faz com a figura do rei: ''Se o rei começa a envelhecer, sua força mágica está ameaçada''. Qualquer semelhança com nossos ''velhos reis'' não é mera coincidência.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político e de comunicação em São Paulo
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