ESPAÇO ABERTO - Razão e diálogo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 21 de janeiro de 2005
Aguinaldo Pavão 
Ao que parece, somos seres racionais. Logo, nada mais natural que pedirmos razões. Daí ser muito normal ouvirmos coisas como: ''Você não tem razão'' ou ''mas por que você fez isso?''. Porém, nós também frequentemente ouvimos e falamos ''não vale a pena discutir'', ''isso não se discute'', ''você está sendo muito racional''.
Esse segundo tipo de comportamento tem muita afinidade com o fanatismo e a violência. Por certo, ninguém defenderia que a simples recusa de oferecer razões seja por si só fanatismo ou um ato de violência. Contudo, para um fanático, seja aquele que se supõe iluminado ou o que proclama uma exaltada e cega devoção, a razão pode perfeitamente ser dispensada. Por sua vez, a violência se caracteriza basicamente por não oferecer razões, quer dizer, a violência pode ser definida como aquele comportamento que não se pode justificar.
Estou me referindo naturalmente à violência positiva, não às ações violentas contra uma violência originalmente sofrida. O indivíduo que comete, por exemplo, um estupro, pratica uma violência no sentido primeiro da palavra. Isto significa que ele não dispõe de boas razões para fazer o que fez. Falo aqui em ''boas razões'' apenas para pôr em relevo o aspecto legitimador da apresentação de razões.
É claro que o estuprador pode perfeitamente ser entendido como alguém que age com razão, não apenas por saber o que faz, mas também por que age por certas motivações refletidas. Ele poderia dizer: ''Estuprei por que desejava o prazer e contava com a possibilidade da vítima não me denunciar e não ser descoberto pela polícia''. Por que não podemos dizer que um estuprador age com ''boas razões?'' Porque ele renunciou ao jogo da razão, ao jogo do consentimento fundado em motivações dialógicas.
Mas o interessante é que cotidianamente vemos pessoas renunciarem também a esse jogo. Isso eu pude mais uma vez constatar ao ler as reações que o meu artigo ''Tsunami e a bondade de Deus'', publicado na Folha de Londrina (12/01/05, p. 2), provocaram.
Ora, escritos públicos, com pretensão de validade racional, isto é, que não sejam meros desabafos ou criações artísticas, devem, necessariamente, buscar, mediante o apelo a motivações racionais, a defesa argumentativa de posições, juízos e hipóteses. Ou certas pessoas pensam que estão investidas de um mandato divino e, portanto, estão imunes a controvérsias, ou elas são meros propagandistas, demarcadores de posição, sem maior compromisso com o diálogo crítico. Na verdade, poderíamos dizer que elas não chegaram ainda ao século XVIII, quer dizer, são pré-iluministas.
Pessoas que emitem opiniões públicas, quando pretendem alguma validade intersubjetiva de suas teses, têm de assimilar um horizonte reflexivo pós-tradicionalista, devendo abrir-se ao diálogo. Mas a adoção dessa alternativa é pouco provável. Certamente elas continuarão a exercitar o impossível diálogo delas mesmas com suas próprias certezas.
AGUINALDO PAVÃO é professor de Filosofia na Universidade Estadual de Londrina


