ESPAÇO ABERTO - Quem tem medo de Requião?
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quarta-feira, 24 de março de 2004
Ruth Bolognese 
Todo mundo diz que o governador Roberto Requião é louco. E aqui a loucura tem duas vertentes. A primeira, favorável e, no fundo, necessária como contraponto a um povo cordato e pronto a conceder. A segunda, desfavorável, e com significado literal.
Mas, hoje, um ano e quase dois meses depois da posse, a grande questão entre os eleitores paranaenses é se, ao chegar à maturidade, o governador pende mais para uma ou outra vertente. E, na dúvida, todo mundo se encolhe como a ema na areia, esperando a crise do momento passar.
Desde o primeiro dia do novo mandato, o governador começou a agir dentro do figurino que se esperava dele e através do qual foi eleito. Levantou questões importantíssimas como os contratos do governo Lerner com as montadoras, por exemplo. Enfrentou os bingos e continua reagindo ao alto preço das tarifas do pedágio e tem apoio popular, mesmo que se discorde, em alguns casos, do método. Algo assim como se justifica à mais recente ex-Big Brother Marcela baixar o nível com a Solange para permanecer na casa. Fins que justificam...
Mas a crise que estourou em Paranaguá mostrou que limites existem até mesmo para quem recebeu a tarefa de administrar o Estado pela força absoluta do voto. Porque a inércia da sociedade diante do absolutismo de um governante conduz, inevitavelmente, a prejuízos incalculáveis. O principal porto exportador de grãos do País não pode e nem deve ser exposto a tamanha irresponsabilidade.
Enquanto as imagens de navios e caminhões parados percorriam o mundo, calou-se a imprensa paranaense que, salvo raras exceções, em nenhum momento explicou em detalhes a origem da crise. Calaram-se os senadores, os deputados e as lideranças empresariais em seu conjunto. Porque não era hora de soltar notas de esclarecimento assinadas por essa ou aquela entidade, nem de fazer discursos em plenário ou pedir a intervenção federal no Porto de Paranaguá. Era hora de união! Era hora de mostrar que, por mais razões pessoais, constitucionais ou ideológicas que tenha, um governante não pode submeter a economia do Estado e do País à sua própria vontade.
O Paraná, como um todo, vai pagar caro por esta semana fatídica. Em moeda corrente, em credibilidade, em fuga de investidores, em capacidade de solucionar conflitos. É o preço que se paga pelo medo de cutucar a onça com vara curta e provocar reações imprevisíveis. Foi com ousadia e coragem que o político Roberto Requião construiu uma carreira que o levou de deputado a governador e senador do Paraná. Abriu caminho em mata de peroba e palmito, povoada por grupos familiares, outros tradicionais e fortíssimos na política. Praticamente incontestáveis. Mas não vacilou.
É hora de os paranaenses perderem, definitivamente, o medo. Até descobrirem que, em dose certa, a loucura é santa.
RUTH BOLOGNESE é jornalista em Curitiba


