ESPAÇO ABERTO - Quem precisa de um Jardim Botânico?
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terça-feira, 29 de julho de 2003
Christian Steagall-Condé 
Se não fosse um visionário como nosso imperador Dom Pedro II, o Brasil jamais teria uma Floresta da Tijuca no Rio. Se não fosse uma meia dúzia de abnegados na década de 70, nossa Ilha do Mel estaria apinhada de centenas de edifícios, poluída e cheia, destruída para sempre, como aliás já ocorreu em grande parte do nosso litoral urbano.
Se não fosse a movimentação espetacular de dezenas de voluntários de todas as classes sociais, Londrina não teria sua preciosíssima Mata dos Godoy, onde 35 mil assinaturas foram entregues ao então governador que assinou o cheque da compra. Agora, pelos jornais, ficamos sabendo da real possibilidade de, enfim, termos nosso próprio Jardim Botânico a um custo zero, fruto de polpuda indenização via acordo judiciário.
Porém, o secretário municipal do Meio Ambiente, Dirceu Fumagalli, considerando que os jornais apuraram corretamente seus lamentos, queixa-se de que não teria sido consultado, coisa típica ''de DCE'', parecendo-me mais amuo do que consistência administrativa. Mas, quem sou eu, senão um simples cidadão, vendo uma espetacular chance destas para a nossa cidade, sumir, desaparecer, escafeder-se.
Sr. secretário, infelizmente não posso influenciá-lo em nada, mas se eu fosse o senhor, eu simplesmente colava na aba de nosso secretário estadual e ''amarrava conversa'' com ele, primeiro porque é da casa e segundo porque está lá na nossa capital, é simples assim.
Respondendo à minha própria pergunta, eu, você e o seu vizinho com filhos precisamos sim de um Jardim Botânico, não apenas por que isso já foi decidido através de consultas de quem entende ou pelo menos mexeu na área, como é um dos equipamentos urbanos mais necessários a uma cidade de razoável porte como a nossa.
Infelizmente, ainda convivemos com ignaros comerciantes cortando árvores (que nos pertencem) defronte suas lojas, árvores que duram 30, 50, 100 ou mais anos, enquanto seus negócios ''malemá'' aguentam 5, quiçá 10 anos, pois assim é que a economia dos empreendimentos naturalmente opera.
Não é só: árvores são os objetos mais notáveis e menos compreendidos do mobiliário urbano das cidades. Cada uma vale, sozinha, um milhão de dólares, já que ela começa ''a custar'' como semente, muda, no plantio e em seu manejo, para dar-nos sombra, aroma, beleza visual, frescor, memória afetiva, referenciais, caráter, personalidade e uma lista infindável de qualidades.
Ah! E tudo isso ''de graça''. Se você for considerar que para ter todos estes mesmos efeitos através de máquinas, displays ou equipamentos, só pra baixar 2 graus da temperatura no verão brabo que se avizinha, seria como termos um relógio da Copel no tronco plástico de cada árvore-falsa com um imenso ar-condicionado disfarçado no formato de copa no topo, gerando uma conta de luz pública estratosférica se multiplicarmos por esta valiosíssima floresta urbana espalhada pelas nossas ruas.
Portanto, resolvam logo estas pendengas estúpidas do hoje e concentrem-se em quem herdará este patrimônio no amanhã, pois muita coisa que nos agrada, que fotografamos e comentamos desta belíssima cidade, aí está porque outras pessoas, exatamente como todos nós, nos antecederam e providenciaram para mudarem suas diversas realidades e, por derivação, mudaram as nossas próprias. Para melhor e para sempre.
CHRISTIAN STEAGALL-CONDÉ é arquiteto em Londrina


