Meio que me deixei vencer pela idiotia do que estou vendo acontecer e, catatônico, sigo em tempo real, atento observador da cisma instaurada pela narrativa que a extrema direita, por seus sabujos adestrados, quer fazer prevalente.

Estou a falar da tarifa de 50% sobre produtos brasileiros que Trump impôs às importações estadunidenses e seus reflexos. Há nuances que, se não observadas no detalhe, perdem a essência no pó da estrada. Bem por isso vou tentar o meu melhor na síntese a que ora vos convido, voltando a estrada onde larguei muito de meu pó...

Com a eminência do julgamento do messias no Supremo, onde está réu por uma série de crimes que se lhe imputa a Procuradoria Geral da República, um seu filho, deputado federal licenciado até anteontem, se mudou para os estados unidos da América e, da terra dos pilgrins, iniciou uma série de atividades conspiratórias, gestadas pela extrema direita estadunidense, que culminaram com a taxação de 50% de imposto sobre os produtos brasileiros exportados para norte américa.

Quem o disse foi o próprio donald trump ao dirigir uma carta ao Brasil, onde afirmou a taxação para início de agosto do corrente ano, justificando-a no que chamou de ‘perseguição política pelo Supremo’ ao messias.

Não bastasse esta inusitada violência sobre nossa autodeterminação governista e judiciária, a aleivosa missiva ainda revela a espetacular ocorrência de ressalvar uma hipotética revisão nos valores da taxação se (e em caso de) a chamada ‘perseguição institucional à desfavor do messias’ for encerrada.

Desenhando, para quem porventura tenha dificuldade com interpretação de texto: se a ação (ou ações) penal contra o messias for arquivada, Donald Trump se comprometeu rever os 50% de taxa então fixados...

Voltemos à roça, naquilo que de lá, talvez, eu não deveria nunca ter saído. Sou nascido e criado até meus treze anos às margens do Ribeirão Jagora (que banha o sítio de meu Pai) entre as limítrofes e icônicas São João das duas Pontes e São João do Iracema – bem separadas pela alvissareira Vila Boiadeira, onde tomei meu primeiro steinhaeger (doble w).

Embora ame o lugar e de lá traga minhas melhores lembranças, o que se descortina no entorno da taxação inusual à que o governo estadunidense submete o Brasil, nega até minhas origens de roça e eu explico...

Há na roça, de onde eu e milhões de brasileiros viemos, a assunção de que o homem (e a mulher, bem assim as demais orientações da existência) abraçam um ponto sem retorno, a partir da qual não há mais hipótese de convívio. Assim, se sou xingado, há certo espaço para paciência, mas se a ofensa for em desfavor de meu Pai ou de minha mãe, a resposta nossa sempre será física e de se fazer doer...

Dias Gomes, em seu belíssimo Santo Inquérito, metaforizou o interlúdio da roça, ao estabelecer que ‘há um mínimo de dignidade que não se negocia’.

Então e desde pequeno, fui criado a não ofender ninguém, principalmente jamais chamar quem quer que seja de filho daquilo. Meus pais, cidadãos de contornos filosóficos que abraçam a arte de bem viver, sempre pautaram minha formação na empatia, lembrando que ao me colocar no lugar do outro eu seria menos egoísta e mais plural. Foi assim que cresci – embora confesse, aqui e agora, que isso nem sempre foi fácil. Hoje então é insuportável, mas há lembranças a serem preservadas...

Assim é que em um dia há mais de quarenta e cinco anos, quando aluno de segundo grau no saudoso Colégio São José (ensino Agostiniano em São José do Rio Preto), minha maravilhosa professora de história (Maria Eugênia) lecionava a Segunda Grande Guerra e eu a questionei sobre como o povo alemão se submeteu a um sacripanta como o chanceler do mal e a um partido político tão odioso e maligno quanto o nacional socialista (nazista, que é de extrema direita, ainda que tenha o nome que tem). Eugênia me disse que o medo faz coisas que só o medo faz e que o rastilho dessa barbaridade sempre é a ignorância...

Ignorância, então, é a liga condutora de pessoas amedrontadas ao malefício político que o mundo, pela mão do político de aluguel, patrocina, sobre a exploração das minorias e a sombra dos interesses das elites econômicas estabelecias...

Pois bem. Tem que ser muito ignorante e filho daquilo que meus pais não me autorizam xingar, para não se levantar contra a motivação da taxação (chantagem política para salvar do eminente cadafalso o messias) anunciada em desfavor dos produtos de exportação brasileiros consumidos pelos estados unidos.

Pior ainda é buscar uma falsa simetria narrativa que desloque os polos e, sem pé ou cabeça, busque responsabilizar o Supremo e o Presidente Lula, pela chantagem explícita que um gângster, no exercício da presidência da república pilgrin, se permitiu.

Não pensava que os filhos daquilo que conheci na roça pudessem proliferar tanto, à ponto de relativizarem a própria condição de suas maravilhosas mães, em tempo de seguirem vendendo e negando as condições em que foram criados.

Trair o país vá lá (afinal de Calabar a Joaquim Silvério há muita história a contar), mas fazê-lo à luz do dia e para salvar o pai de seu encontro marcado com o sistema de justiça brasileiro, à custa de nossa soberania e à malogro de nossa economia, como se virtuosa fosse a traição, isso nunca vi e nem pensava ver.

Tristes trópicos, onde minha roça faz muita falta na formação do caráter do político do século XXI, que serve o próprio interesse, perseguindo e explorando minorias.

Saudade Pai.

João Gomes Filho

Advogado

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