Mais uma atitude do presidente Lula gerou polêmica. A forma descontraída com que recebeu dirigentes do MST e o fato de ter colocado um boné do movimento foram motivos de críticas e protestos. Muitos entendem que ele deveria manter a distância que sempre caracterizou a figura do presidente da República. Um homem inacessível ao ''povão'', ''um semideus''. Já tivemos um que disse preferir o cheiro de cavalo ao de povo.
Mas não podemos esquecer a origem do nosso maior mandatário. Ele veio do povo, é povo e como diria ''graças a Deus não mudou''. Tratou as lideranças dos sem-terra com a mesma cortesia que trataria as da Fiesp, por exemplo, certamente mais à vontade. O que há de errado? Por que outros bonés, usados por Lula, não causaram a mesma repercussão?
Talvez o gesto tenha feito aflorar medos adormecidos em fazendeiros, como os de perder ou ter que dividir suas propriedades com o MST. Estaria Lula avalizando as invasões? Compactuando com desrespeito ao direito de propriedade?
A propósito de direito de propriedade, reflitamos: sob o aspecto legal a Constituição garante o direito de propriedade a quem a detenha documentalmente. E do ponto de vista ético e religioso?
Segundo o Espiritismo Cristão o direito à vida é o primeiro do homem, cabendo-lhe acumular propriedades, que lhe permitam repousar quando não mais possa trabalhar. Logo, todos os agricultores sem-terra têm o direito à propriedade onde possam, com trabalho, garantir o sustento.
Propriedade legítima só é aquela que foi conseguida por meio do trabalho honesto, sem prejuízo de ninguém, ou através de programas sociais. Ora, se fosse investigada a origem de muitas propriedades, verificar-se-ia, que algumas são fruto de grilagens, roubos e outros crimes. O tempo, porém, tudo santifica, de modo que após algumas gerações, tais haveres se transformam em ''sagrado'' e inviolável patrimônio, defendido com unhas e dentes pelos netos e bisnetos, herdeiros dos que o erigiram.
Eticamente, poderia o proprietário de uma fazenda comprada com dinheiro desviado de uma prefeitura, por exemplo, questionar se ela fosse invadida? E deputados e senadores, eventualmente envolvidos em atos de corrupção, portanto, ''invasores do dinheiro público'', têm o direito de criticar as atitudes do presidente da República em relação ao MST?
Ainda assim, as leis devem ser respeitadas. Invasões, saques, depredações, matança de gado em áreas invadidas são crimes que só contribuem para aumentar a rejeição do movimento pela sociedade. Infiltração de pessoas que nada têm a ver com a agricultura, uso político e o comportamento de certas lideranças ''com terra'' deixam em dúvida os reais objetivos. Será que se num passe de mágica, ''com a ajuda de Deus'', como dizem, se conseguisse assentar todos os acampados o movimento deixaria de existir?
Como vimos o direito à propriedade é sagrado. Que os governos cumpram ou recorram das decisões judiciais. Sagrado também é o direito à democracia. São preocupantes as reações de grupos contrários às reformas, reconhecidamente necessárias. Alguns, provavelmente, estejam desejando que Lula ''pegue o boné'', o que é perigoso. Lembremos das consequências de 1964.
Que o presidente tenha tranquilidade para trabalhar e o direito de ser julgado ao final do seu mandato. Em condições normais, somente ele, seu partido e os eleitores, em 2006, devem decidir sobre ''pegar ou não o boné'', no sentido popular da expressão, e voltar para São Bernardo, como disse.
VALCIR JOSÉ MARTINS é administrador em Maringá

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