Na era da rapidez, da imediaticidade e da fulgacidade, um mínimo de reflexão, embora não resolva todos os problemas, pode ao menos indicar possíveis saídas. E no caso em questão, a reflexão se tornou de uma complexidade sofrível. Exatamente o que representa uma eleição municipal de 2004 como a de Londrina? Representa um fragmento da vitória de um projeto de sociedade implantado com mais vigor a partir de 1964. Os frutos do autoritarismo semeados em época de inexistente democracia começaram nascer em tempos recentes. Todo o tipo de ''mal-estar socioeconômico'' e anomalias políticas que se arrastam pelas últimas décadas, demonstram a profundidade do controle ideológico (em substituição ao controle militar) das possibilidades políticas existentes, ou seja, uma democracia acinzentada. Um controle que faz com que a democracia se torne apenas o fim da luta política e não o meio por qual ela se desenvolve.
As eleições em Londrina significaram apenas o escolher entre as possibilidades dadas, uma que fosse menos desastrosa. E para dar um ar mais fantasioso, o londrinense pôde ainda ''jogar'' mais de uma vez. Pôde escolher entre um atual administrador de capacidade duvidosa e um antigo administrador de capacidade e honestidade pra lá de duvidosa. No entanto, acreditar que a vitória conhecida é sinal de amadurecimento da democracia, ultrapassa os limites da demagogia.
A vitória de um dos lados pode ter significado, no limite, a negação de uma certa prática que se enraizou fortemente na política brasileira, mas não significou a completa negação dela. E isso, embora não mereça ser desqualificado, é apenas um pequeno avanço. A negação em um plano mais geral não se realizou. A quem pode ser creditado tal otimismo com os resultados dessa democracia? Apenas àqueles que se beneficiam dela, assim como também se beneficiaram poucos com a ''jornada'' de 64. A diferença é que nessas épocas, há pão e circo para uma maioria. Mas, sabemos que o pão é pouco e o circo cobra muito caro de seus espectadores.
E na era da rapidez, da imediaticidade e da fulgacidade, e passado o pleito ''eleitoreiro'' um mínimo de reflexão torna-se sofrível. Não há mais tempo, não há mais pão, só há um velho circo com os mesmos palhaços e milhões de equilibristas.
Em sua Carta ao Pai, Kafka terminava dizendo: ''Parece-me que chegamos, apesar de tudo, a um resultado aproximando-se muito da verdade para nos tranquilizar um pouco e nos tornar a ambos a vida e a morte mais fáceis.'' Termino apenas perguntando se a vitória daqueles de 64 não foi exatamente consolidar uma espécie de democracia que torne ao trabalhador brasileiro apenas a morte um pouco mais fácil?

JULIO CÉSAR CAMPANO FLORIANO é sociólogo em Londrina e pós-graduando em Economia do Trabalho e Sindicalismo pelo Instituto de Economia da Unicamp em Campinas-SP

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