Espaço Aberto - Quadrilha sem fim
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de junho de 2016
Daniel Medeiros 
Balancê - Era 1996, véspera de São João, as quadrilhas em ponto de bala para o início da festança. Em Guaxuma, na orla norte de Maceió (AL), em sua casa de veraneio, o chefe de outra quadrilha morre com um tiro no peito. Quatro dias depois, estaria PC Farias na CPI das empreiteiras dando um testemunho que, para o submundo da corrupção oficial, seria um verdadeiro rojão. Nunca se soube, exatamente, quem deu a ordem do disparo.
Returnê - PC Farias foi o tesoureiro da campanha de Fernando Collor de Melo, o aventureiro alagoano que, com apoio das mídias nacionais, conseguiu frear o ímpeto do "sapo barbudo" Lula, impondo-lhe uma derrota no segundo turno e evitando a saída de 800 mil empresários do país, como disse, na época, o presidente da Federação das Indústrias de São Paulo, Mario Amato.
PC Faria foi também, o operador master das propinas pagas por empreiteiras para o caixa dois da campanha e para as despesas pessoais do então presidente como a reforma de sua mansão em Brasília e administrador das sobras de campanha, albergadas em paraísos fiscais. Um Sancho Pança de um Quixote tupiniquim, destemperados ambos, a assaltarem os moinhos de vento da frágil democracia brasileira, com sua imprensa leniente e uma sociedade ainda atordoada pelas décadas de ditadura e crise econômica.
Tour - O governo Collor naufragou quando deixou claro aos seus aliados que sua sede e fome de poder tinham endereços privados e mesquinhos demais e que sua incapacidade de consolidar uma máquina azeitada e benéfica para todos era precária. Sem apoio parlamentar, após um desastroso plano de contenção da inflação, a mídia começa a virar o jogo, na mesma medida em que a sociedade retoma o grito das Diretas Já, agora sob nova direção: impeachment!
Collor cai, PC Farias é condenado por sonegação fiscal, cumpre pena em regime aberto, sente-se abandonado por todos e, cada vez mais irritado com a perda de influência, prestígio e adulações, ameaça estragar a festa dos que saltaram de banda, incólumes, da enxurrada democrática que varreu (temporariamente) os vendilhões do templo de Brasília. E então morreu. Há vinte anos. A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou... Monta a fogueira de novo! É tempo de mais festança!
Anavan - Hoje a quadrilha continua. Marcado por emoções desvairadas, torcidas enlouquecidas, amores e ódios desmedidos, o país marcha, avante, em outro mês de junho, outros escândalos, outro impeachment, outra vez as empreiteiras, outros tesoureiros presos, outras mortes sem solução Celso Daniel, lembram? tendo como protagonistas, agora, muitos dos que apontaram o dedo para Collor de Mello e PC Farias e que, enfim, parece que o que queriam era apenas tomar-lhes o lugar na grande operação de esbulho que não para, contínua e metodicamente, como festa em mês de junho, como uma dança de cadeiras onde só quem não entrou ainda na história não foi L. Pinto Fernandes, o marido de Lili. Foi a verdade. Ou a Justiça. Ou, simplesmente, a vergonha na cara.
DANIEL MEDEIROS é doutor em Educação pela UFPR e professor de História do Brasil no Curso Positivo em Curitiba
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