ESPAÇO ABERTO - Pupilos de Lula no divã
PUBLICAÇÃO
domingo, 02 de agosto de 2009
Gaudêncio Torquato 
Por esta ninguém esperava: Luiz Inácio, o presidente da República, como psicólogo e com dois pacientes no divã. A primeira é Dilma Rousseff, a ministra de temperamento esquentado, que sinaliza cuidado na rota dos governistas com suas broncas públicas em ministros e assessores. O destempero pode ameaçar as alianças em torno de sua candidatura em 2010. O segundo é Ciro Gomes que avalia a possibilidade de se candidatar ao governo de São Paulo, tendo como patrono o próprio Lula. A índole explosiva do deputado nascido em Pindamonhangaba (SP) e com vida pública no Ceará também clama pela psicologia lulista. A espoleta que parece prestes a explodir, sempre que as duas figuras enfrentam situações até corriqueiras, começa a inquietar correligionários, que enxergam no jeito destrambelhado de ambos fator de risco para suas eventuais campanhas. O psicólogo Lulinha paz e amor terá pela frente a indeclinável tarefa de amenizar o azedume de seus dois pupilos.
A construção de diques para conter a torrente de emoções de candidatos é uma recorrência nos ciclos eleitorais. Nem sempre esse empreendimento tem êxito. O exercício equivaleria à recomposição do temperamento dos quatro grupamentos classificados por Hipócrates, o pai da medicina: os sanguíneos, os coléricos, os melancólicos e os fleumáticos. A ministra Dilma e Ciro, pela maneira como algumas vezes se comportam, aproximam-se dos coléricos, pessoas imperiosas, controladoras, independentes e impetuosas. Já os sanguíneos, como Getúlio Vargas ou Winston Churchill, conseguem reunir aquelas duas qualidades que Maquiavel distinguia no leão e na raposa: a força para se garantir contra os lobos e a astúcia para agir na hora exata. Lula parece sanguíneo, com seu estilo cordial e comunicativo. Mas agrega também aspectos negativos, como a indisciplina e o egocentrismo.
Se Vargas equilibrava rigor e benevolência, gastando saliva para se fazer amado pelo povo, exibindo autoridade para ser temido, era um mestre na arte de prometer e não cumprir, enquanto Churchill era capaz de perdoar adversários. Não guardava rancor, comportando-se em público como se estivesse entre os pares. Ensinava: ''A raiva é um desperdício de energia''. É provável que a empreitada de Lula no campo da psicologia seja mais bem-sucedida com a (im)paciente Dilma que com o impetuoso Ciro. Em relação àquela, a proximidade o ajudará. Quanto ao ex-governador do Ceará, escolhido para o papel de canhoneiro de plantão, a fúria discursiva faria parte da estratégia para fustigar o governador José Serra, alvo de sua artilharia. Com o tiroteio, a Dilma poderia avançar em plagas paulistas.
A questão é saber se a virulência dos pupilos do presidente angaria votos. O receio é que a eventual candidata, sem conter o ''animus espinafrandi'', crie barreiras nas conversações com aliados, a partir do PMDB, que arranjaria em carões públicos motivo para afastamento. Ademais, o eleitorado quer enxergar em seus candidatos uma identidade acima do bem e do mal. Só uma pequena fatia gosta do estilo galo de briga encarnado por Ciro. Perfis azedos e mal encarados são, regra geral, antipáticos. Lula sabe que o feitiço se pode voltar contra o feiticeiro. Por isso poderá convocá-los para uma sessão de psicologia. Quanto ao governador paulista, a tendência é a de que, com seu temperamento fleumático, não caia em emboscadas. Os fleumáticos, como se sabe, são mais diplomatas. Organizados, práticos e condescendentes, analisam poréns e circunstâncias. Na disputa entre um fleumático e um colérico, o primeiro leva vantagem. Já o segundo é mais eficiente no papel de opositor. Ou quando o momento sugere indignação contra o status quo. No caso brasileiro, entre os prováveis candidatos, Dilma, com seu temperamento esquentado, atuaria bem como abre-alas oposicionista.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político em São Paulo


