Dá para se perceber claramente a dúbia atuação de PT em relação às atividades do MST. Se alguém espera uma ação mais efetiva por parte do governo no coibimento das invasões, tanto na área rural quanto em prédios e terrenos urbanos, pode amarrar o cavalinho na sombra por que isto provavelmente não acontecerá. Se as invasões vierem a provocar reações mais fortes por parte dos proprietários, a ação governamental será para proteger os invasores e não o contrário, como é a expectativa daqueles que querem a proteção da lei.
Acontece que toda a plataforma política do PT foi edificada em propostas reformadoras da sociedade brasileira. O ponto de união, de convergência do grupo liderado por Luiz Inácio Lula da Silva é a reforma do Estado brasileiro. Obviamente que esta reforma atropela em muitos pontos a Constituição. O caminho para aplainar os conflitos constitucionais seria a Reforma Política, proposta que não encontra respaldo em nenhum dos atuais partidos políticos.
Por outro lado não podemos ignorar o enorme fosso das desigualdades sociais em nosso País, colocando-o como o campeão da concentração de renda no mundo. Justamente neste ponto é que converge o que o MST quer e a cúpula do PT gostaria de fazer. Não podendo fazer por falta de recursos orçamentários, ou por falta de competência, não importa muito as razões, a elite socialista do PT vê como um instrumento de apoio aos seus desejos as ações de invasão do MST. Ou seja, recebe a tática das invasões quase como uma ajuda para o que imagina ser uma forma de forçar a barra em direção às reformas.
Apenas para corrigir a informação de que no Brasil nunca foi feita uma reforma agrária, é bom esclarecer que todo o Norte, Oeste e Sudoeste do Paraná foi colonizado por loteamentos constituídos de pequenas propriedades rurais. Diferente do Nordeste, Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo. Rondônia, em sua maior parte, inicialmente constituiu-se de loteamentos de pequenas propriedades. No Mato Grosso do Sul e Mato Grosso há de tudo. Neste último e mais no Pará, Amazonas e Tocantins foram onde se desenvolveram os maiores projetos agropecuários sob a égide da Sudam, constituídos em sua maioria de latifúndios, com total apoio das autoridades da época. Outro grande programa nacional estimulador do latifúndio e concentrador da renda foi o Proálcool, com total apoio do BNDS. Não poderíamos deixar de falar do Estatuto da Terra, que alijou do setor produtivo rural milhares de meeiros, arrendatários e parceiros. Sem uma análise profunda dos acertos e equívocos destas políticas e ações, cometeremos os mesmos erros novamente. Em primeiro lugar é preciso diagnosticar corretamente.
Se o governo for capaz de ousar e agir na direção correta com as reformas em votação no Congresso Nacional, diminuindo efetivamente os privilégios dos fazedores das leis que se constituem dos grupos corporativos, dos grupos de interesse comum, enfim da casta dominante do País que tem capacidade de se organizar e pressionar deputados e senadores; se ousar na promoção do assentamento de 250 mil famílias às margens do São Francisco, onde a Codevasf já construiu canais de distribuição de água para irrigação de algo em torno de um milhão de hectares, gerando com isto mais cinco a vinte empregos indiretos; de promover novos assentamentos em derredor de todos os outros açudes construídos e em construção no Nordeste a título de minimizar os efeitos perversos da seca, o governo terá todo o apoio da maioria da população brasileira que, diga-se, não espera outra coisa de nosso presidente.
Assim vivemos um momento único na história brasileira, a oportunidade de promover uma redistribuição de renda que satisfaça aos anseios do PT e da maior parte da população brasileira que sufragou o nome de Luiz Inácio para presidente da República visando a concretização de sua proposta de distribuição da renda. O que somente será possível pela política de desenvolvimento correta, gerando milhares de novos empregos, e devolvendo a paz ao campo, onde a população, em sua maioria, é favorável à reforma agrária mas vê com preocupação a estratégia das invasões.
JOSÉ EDUARDO DE ANDRADE VIEIRA é ex-ministro da Agricultura e da Indústria e Comércio e ex-senador

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