ESPAÇO ABERTO - Professor universitário: carreira em mutação
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
José Miguel Arias Neto 
Peço licença ao colega José Luciano Tavares da Silva, do departamento de Ciências Fisiológicas, para discordar do artigo ''Professor universitário: futuro sombrio'' (Espaço Aberto, 16/10). Evidentemente o problema apresentado é relevante a despeito dos equívocos de formulação. O eminente professor parte do princípio da existência de um ''mal'' que é a exigência das publicações científicas no meio universitário. Isto porque a pesquisa que gera as tais publicações ''atrapalha'' o processo de ensino que ficaria desqualificado diante de uma atividade considerada mais ''nobre'' pelos próprios docentes que deixariam as aulas em segundo plano.
Nada mais falso. Vamos aos fatos: as agências como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e as fundações estaduais têm financiado cursos de pós-graduação, projetos de pesquisa, projetos de extensão (como o Universidade sem Fronteiras), projetos de ensino (como o PDE), além da publicação de periódicos, eventos, participação em eventos e, mais recentemente o ensino a distância, sem falar em recursos para obras de infraestrutura, laboratórios, equipamentos, etc. Devido a este enorme volume de recursos aplicados, as agências necessitam avaliar de algum modo os resultados obtidos pois compreendem que a formação de recursos humanos, o professor e o pesquisador em todas as áreas, é estratégica para um país como o Brasil que deve também internacionalizar sua ciência.
Como avaliar? No caso da pós-graduação, lugar privilegiado da ''pesquisa'', são avaliadas a produção científica (publicação de livros, capítulos de livros e artigos em periódicos científicos) numa média de três publicações em três anos. Ora para quem possui um trabalho de pesquisa, publicar um texto por ano é muitíssimo razoável, senão pouco. Até porque se não houver publicação a pesquisa é quase inútil, visto que não é compartilhada, não é verificada e avaliada pelo público leitor especialista. Mas os cursos de pós também são avaliados em outros itens: inserção social (projetos de extensão, ensino a distância, produção de materiais didáticos) integração com a graduação (orientações de iniciação científica, de TCC, etc.). Os programas devem ser harmônicos, bem distribuídos em suas atividades e o seu integrante, um professor com doutorado deve ministrar aulas na graduação, na pós, orientar IC, TCC, dissertações e teses.
Na perspectiva do professor Tavares deve haver uma cisão entre estas atividades. Nada mais contrário ao espírito universitário, à formação de recursos humanos e ao desenvolvimento do país. Todos perdem com esta cisão entre ''pesquisadores'' e ''auleiros''. Isto porque não há ensino sem pesquisa. Afinal um professor em sala de aula comunicará o que se não fizer pesquisa, se não tiver experiência de laboratório, de arquivos, de viagens de pesquisa de campo e de participação em simpósios? O conteúdo de textos? De artigos e livros que ''outros'' escrevem, mas que ele mesmo também não sabe como faz, por que também não fez? Transforma-se o ensino em mera reprodução de conteúdos.
O pesquisador relegado ao seu laboratório dá no mesmo pois os alunos não terão acesso às suas experiências, aos modos de fazer, etc. A questão fundamental, ao contrário, é a que diz respeito em todas as áreas: há os bons e maus profissionais. Os argumentos do professor Tavares não podem servir de base a uma organização universitária. Não há formação sem pesquisa, há apenas reprodução do velho e manutenção do status quo, isto é a reprodução da miséria econômica, social e cultural e, evidentemente, política. A profissão está mudando, e é bom que isto esteja ocorrendo. Não podemos voltar atrás, aos velhos tempos das oligarquias do tempo de serviço. A carreira universitária deve fundamentar-se no mérito da pesquisa, do ensino e da extensão, ou então, aí sim, perecer.
JOSÉ MIGUEL ARIAS NETO é professor de História Contemporânea na Universidade Estadual de Londrina
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