ESPAÇO ABERTO - Primavera silenciosa
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Amarildo Pasini 
Por que a primavera ficou silenciosa? Rachel Carson, autora do famoso best-seller ''Silent Spring'', provocava seus leitores assim: ''Havia ali um estranho silêncio. Para onde foram os pássaros? Somente o silêncio pairava pelos campos e pelas matas''.
Publicado em 1962, ou seja, há 50 anos , a referida obra apontava como principais vilões os produtos químicos clorados que, segundo seus relatos, causavam problemas na casca dos ovos das aves, provocando mortalidades, reduzindo sua população e consequentemente a cantoria, refletindo no título do livro.
Mas a publicação não se limitou ao caso das aves, ampliando-se também para outros substratos e elementos da cadeia alimentar, como organismos da água, do solo e o próprio homem. O grande diferencial dessa obra, apontada como um ''divisor de águas'' , se deve ao foco na questão ambiental, colocando o homem como grande culpado pelos atos que ocorriam, ou seja, de estar ''temporariamente cego'' para enxergar os impactos dos clorados na natureza. Especialmente pela negligência em liberar produtos químicos no comércio, cujos efeitos sobre os organismos ou a natureza eram pouco conhecidos.
Rachel Carson era bióloga e especialista em zoologia. Foi por meio de observações, diálogos com especialistas, análises e reflexões que ela escreveu essa obra, referência mundial até hoje. ''Nós permitimos que esses produtos fossem utilizados com pouca ou nenhuma pesquisa prévia sobre os efeitos no solo, na água, animais selvagens e sobre o próprio homem'', escreveu ela.
Embora tenha sido acusada de imprecisão científica, grande parte dos seus argumentos foram confirmados, especialmente no que se refere ao impacto dos clorados no ambiente e no homem. Tais substâncias, quando se acumulam no nosso organismo, aumentam gradativamente a carga tóxica ao longo do tempo, tornando-se poderosas toxinas, podendo ser a causa de muitas doenças crônicas. Essas substâncias também eram passadas às crianças pela amamentação e transferência placentária. Na cadeia alimentar, os clorados eram potencializados num fenômeno conhecido como magnificação biológica, sendo inclusive encontrados em animais que nunca haviam sido expostos aos produtos, mas que comumente pertenciam ao final da cadeia alimentar.
Somente dez anos após a publicação de Carson, ou seja, em 1972, e cientificamente provados seus efeitos colaterais, os Estados Unidos proibiram o uso dos clorados. Nos demais países isto ocorreu em 1985. Porém, no Brasil, somente em 1992, após intensas pressões sociais, foram banidas todas as fórmulas à base de cloro, como o BHC, Aldrin, e o Lindano.
Após 50 anos do lançamento, esse livro continua sendo reeditado. No entanto, apesar de tanta tecnologia e conhecimentos, temos a impressão de que continuamos cegos e surdos em muitos aspectos relativos à natureza.
Usamos intensamente a terra, mas somos seres estranhos neste planeta. Queremos a sombra e os frutos, mas reclamamos das árvores, pois sujam o chão, ou impedem grandes cultivos. Gostamos da beleza e do canto dos pássaros, mas reclamamos das suas fezes, como se eles tivessem que vir cantar aqui e defecar acolá.
Como poderemos detectar o silêncio da natureza se, mesmo para relaxar, caminhamos nos bosques, praças e fundos de vales com fones de ouvido e celulares nas mãos? Quem vai cuidar da natureza se não treinamos nossos próprios olhos e ouvidos? Que exemplo passamos para as crianças, guardiãs deste patrimônio?
Temos a grande missão de despertar um naturalista em cada criança. Não podemos perder tempo, vale à pena observar e cuidar, pois é só abrir as janelas e observar que tanto os ipês quanto os flamboyans estão floridos, pois é chegada mais uma primavera.
AMARILDO PASINI é engenheiro agrônomo e professor do departamento de Agronomia da Universidade Estadual de Londrina


