''Tanto quanto me foi dado conhecer os homens, todos nós tendemos um pouco, mormente na mocidade, a confundir desejo com previsão.'' Herman Hesse, o Abade em Narciso e Goldmundo.
A sequência cadenciada e linear de equívocos da gestão petista conseguiu solapar a esperança de milhões de brasileiros que acreditaram piamente que as mudanças operadas pela sigla partidária que assumia o poder seriam capazes de transformar radicalmente o cotidiano da população.
Acredito que, ao término do segundo ano do atual governo, nem mesmo os mais ardorosos militantes do Partido dos Trabalhadores são capazes de esboçar o menor gesto de entusiasmo com os rumos da administração de Luiz Inácio Lula da Silva. A propósito, no último pleito municipal o que assistimos foi à profissionalização das campanhas eleitorais do PT. Os que no passado militavam nas ruas do país por convicção ideológica foram substituídos por cabos eleitorais remunerados. Sinal dos tempos...
O governo em coro faz apologia do crescimento econômico e promete muita pirotecnia para o ano que se aproxima. O Presidente Lula chegou a garantir que os juros vão iniciar uma trajetória declinante a partir do mês de janeiro. Nesse caso específico, Sua Excelência expressa um desejo em forma e na moldura de previsão.
Em abril de 2002, em um comício no Paraná, na cidade de Ponta Grossa, o postulante ao cargo de primeiro dignitário da Nação afirmava que, se fosse eleito, ''os juros vão ser baratos porque os banqueiros não vão assaltar o bolso do povo trabalhador''.
Segundo abalizado estudo da Austin Ratting, empresa especializada em análise de balanços, ao longo dos dois anos do governo Lula o setor financeiro conseguiu expandir seus lucros consideravelmente. Até o mês de setembro, o lucro líquido de 19 bancos públicos e privados chegou a R$ 9,913 bilhões no ano. Isso representa 11,51% a mais do que nos nove primeiros meses de 2003. As projeções da Austin Ratting apontam que o lucro final deste ano será de R$ 13,038 bilhões, contra R$ 12,580 bilhões em 2003.
O lucro exorbitante do mercado financeiro na era Lula se deve à conjugação de dois fatores: lentidão na queda dos juros e fracasso das políticas públicas que pretendiam cortar os spreads bancários. O custo do dinheiro no Brasil é indecente, chega a 15% nas operações com empresas e a 48% quando a operação envolve negociação com um assalariado. Pelos cálculos da Austin Ratting, o volume de empréstimos no Brasil equivaleu a 25% do PIB, um número inferior ao do Chile e da Bolívia.
A questão dos juros, os spreads bancários e o acesso ao crédito financeiro são questões que devem permear os debates sobre a economia em 2005. A busca pelo crescimento sustentável num ambiente de juros escorchantes e de spreads bancários maiores que os praticados em Angola é um estorvo previsível no cenário de 2005. No que depender do Senado, o governo contará com o meu apoio para remover todo e qualquer entrave, desde que o interesse da República esteja acima de conveniências conjunturais.

ALVARO DIAS é senador e vice-líder do PSDB

mockup