Segundo dados do IBGE de 2007, a população brasileira em 2010 é de cerca de 190 milhões de pessoas das quais 10,5% têm mais de 60 anos. E essa porcentagem vem aumentando consideravelmente a cada década. Entre 1997 e 2007 o aumento da população idosa foi de 47,8%. Estima-se que até 2025 a população idosa do país terá ultrapassado os 20% se continuar aumentando neste ritmo. Esse crescimento se deve a inúmeros fatores, entre eles, a menor taxa de mortalidade devido ao avanço da medicina. No entanto, como é ser idoso no Brasil? Qual o tratamento que os idosos recebem das outras pessoas, muitas mais jovens e das quais às vezes dependem? É curioso e ultrajante observar que essa parcela da população recebe um tratamento desrespeitoso e negligente.

Devido à campanha de vacinação contra a influenza A (H1N1) fui a um posto de saúde da cidade me vacinar. Havia inúmeras pessoas esperando para se consultar com médicos ou pegar medicamentos. Outras aguardavam para serem vacinadas contra a gripe. Entre os que esperavam a sua vez para receber a vacina me chamou a atenção um senhor que aparentava ter mais ou menos 70 anos. Ele havia sofrido um acidente dois dias antes e estava com curativos no rosto, tinha o braço apoiado em uma tipoia e o olho direito estava inchado e escuro. Por recomendação médica, sua filha o havia levado ao posto de saúde para tomar a vacina Dupla Bacteriana, contra difteria e tétano.

O que qualquer pessoa de bom senso esperaria que fosse feito naquela situação? Aquele idoso teria preferência no atendimento e receberia sua vacina tão logo chegasse ao posto de saúde? Não foi isso que aconteceu. Para surpresa e indignação de alguns, ele teve que esperar na fila até chegar sua vez de receber atendimento. Quando questionados, os funcionários do posto disseram que era uma regra e que todos deveriam esperar na fila, independentemente de idade ou condição de saúde.

Isto é inadmissível tanto do ponto de vista legal quanto por questões de bom senso. Os idosos têm a preferência de atendimento prioritário imediato garantida pelo Estatuto do Idoso, lei sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 1º de outubro de 2003. A referida lei no seu artigo 3º estipula a ''obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do poder público em assegurar ao idoso a garantia de prioridade que compreende atendimento preferencial imediato e individualizado junto aos órgãos públicos e privados prestadores de serviços à população''. Se este direito é tão bem explicitado na lei por que algumas pessoas teimam em não respeitá-lo? Será por ignorância ou por displicência? Seja qual for o motivo este tipo de ato não pode continuar ocorrendo.

O então ministro da Saúde, Humberto Costa, à época da sanção do Estatuto do Idoso, disse que ele é uma ''importante conquista da cidadania em nosso país''. No entanto, esta cidadania precisa ser garantida e praticada. Um país que tem se destacado internacionalmente em vários âmbitos não pode permitir que sua população, em especial a idosa, seja tratada com indiferença ou desrespeito. Cabe a todos os setores da sociedade zelar pelo bem-estar, exigir respeito e garantir o cumprimento dos direitos da população. E nós cidadãos devemos ficar atentos e reclamar, chamar a atenção da sociedade e das autoridades caso nossos direitos ou os direitos do próximo sejam desrespeitados. Não podemos simplesmente nos calar quando testemunhamos algo como o narrado acima. Só assim estaremos colocando em exercício nossa cidadania, que uma vez conquistada não pode se limitar a um documento escrito. Ela deve se manifestar nos atos de todo e cada cidadão deste país.

ALCIONE GONÇALVES CAMPOS é professora colaboradora do departamento de Letras Estrangeiras Modernas da Universidade Estadual de Londrina



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