ESPAÇO ABERTO - Praças da memória
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 26 de março de 2004
Humberto Yamaki 
Um documento relacionado às cidades, recentemente publicado pela Comunidade Européia, fala sobre a importância da interconexão entre gerações, a diversidade multicultural e a identidade dos cidadãos relacionada com o caráter do local. As temáticas apresentadas, não são alheias à nossa realidade. A população brasileira vem envelhecendo rapidamente. Apesar disso, a infra-estrutura de nossas cidades não tem acompanhado essa transformação. Ao comemorar 70 anos, Londrina possui cerca de 50 mil idosos, segundo o último censo do IBGE. É necessária uma reflexão sobre o re-uso de nossos espaços públicos.
Há muito tempo comenta-se o esvaziamento progressivo das praças. Lugares acima de tudo simbólicos, de manifestação, onde era possível encontrar amigos, conversar, reforçar o senso de comunidade, respirar e sentir o tempo passar. Frente ao número cada vez maior de idosos, as praças deveriam também assumir uma nova função: a de espaços de recuperação e reabilitação da memória.
O espaço da praça deve ser instigante e provocativo. Desenhos do piso poderiam ser originais exercícios de memória. Lembro de um, nos jardins do século XVII, do Palácio Imperial de Kyoto no Japão, chamado de hifumi-ishi ou pedras um-dois-três. Pequenas pedras pretas e vermelhas, agrupadas como pegadas de coelhos na neve, definem um piso ao mesmo tempo simples e elegante.
Valorizar e gravar os mitos, histórias e paisagens, pode ser um dos importantes passos à construção de lugares ligados à comunidade. A fragilidade no reconhecimento da história em Londrina está ligada também à facilidade na mudança de nomes de ruas e praças. Cadê a rua do Lago, a rua do Commercio, a rua Curytiba e os antigos caminhos?
Parcela significativa da população deverá desenvolver doenças degenerativas do cérebro com a idade. Os espaços reconhecíveis, os espaços da memória trarão algum conforto nas terapias de retardamento desse processo. Existem poucas árvores de porte em Londrina. Todas vêm sendo sistematicamente derrubadas e substituídas por mudas de 1,5m, de espécies exóticas. Deve-se lembrar que árvores podem significar além de tudo, marcos da passagem do tempo, patrimônio cultural. No quintal de uma casa perto da Avenida Higienópolis, imensas jaboticabeiras definem com suas sombras os limites do antigo centro histórico.
O Álbum de Londrina de 1938, relata a existência de 31 nacionalidades entre os primeiros compradores de terras na região, uma Londrina multicultural. Quantas dessas nacionalidades, quantas línguas ainda são faladas e reconhecíveis na cidade? Sabe-se que depois de certa idade afloram as memórias do passado. Espaço público e saberes multiculturais sugerem novas possibilidades na conexão entre gerações.
Mais do que isso, o espaço praça poderia agregar função de locais de atividades físicas, de recuperação de movimentos, de fisioterapia. Praças visíveis, acessíveis e familiares. Caminhos retos ou labirínticos, rampas e escadarias com corrimãos por toda parte permitiriam o apoio necessário às caminhadas.
Um convênio, através da conscientização da vizinhança, poderia facilitar o uso de sanitários, tão ausentes, implementar a segurança e reforçar os laços de comunidade. Pequenas praças assim poderiam estar distribuídas por toda a cidade. Praça de vizinhança, de reabilitação física do idoso, de reabilitação do senso de comunidade e de pregnância de saberes. Praça onde o tempo volte a passar devagar, motivadora, acolhedora e segura, espaços da memória.
HUMBERTO YAMAKI é arquiteto e professor de pós-graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento na Universidade Estadual de Londrina


