Recentemente, ao dar aulas em um curso de pós-graduação, tratei do tema diversidade sexual, e o e-mail recebido de uma aluna, após participar dessa aula, levou-me a refletir, com muita tristeza, sobre a formação universitária de nossos profissionais e sobre nosso sistema de ensino como um todo. Assim dizia o e-mail: "Tenho uma postura bem resolvida quanto a essas questões. Sou cristã, e minha posição é o que a Bíblia diz: se ela diz que é certo é certo e se ela diz que é errado é errado. Não acredito em interpretações, acredito no que está escrito. E, por mais reflexões que eu faça sobre essas questões, mais convicta da minha fé fico. Espero que a sra. compreenda, assim como respeite também minha postura. Sou formada em psicologia, mas antes da minha formação tenho minha fé, respeito todas as teorias [...], tenho o direito de ter minha fé, não sou preconceituosa, porque não é isso que a Bíblia prega, ela fala de amor pelo próximo, mas fala também de uma vida segundo a vontade de Deus nosso Criador [...]".
Como pessoas, temos, sem dúvida, o direito de ter nosso posicionamento pessoal diante de qualquer assunto e de agir segundo nossa família, pautados no que acreditamos. Entretanto, quando atuamos profissionalmente, em nosso campo de formação, temos o compromisso ético de conhecermos o que a ciência diz a respeito de determinado assunto e de agirmos de forma coerente com este conhecimento.Isso vale para professores, psicólogos, médicos, assistentes sociais... Você pode dizer a seu filho que homossexualidade é pecado, mas a alunos ou pacientes você não pode. Você deve esclarecer que homossexualidade não é doença, não é transtorno, que nada diferencia uma pessoa hetero de uma homossexual e que, desde 1973, órgãos vinculados à saúde e à saúde mental já fizeram esta constatação. Deve esclarecer que também não é opção, pois a pessoa não escolhe ser homossexual. É útil dizer que não é algo que tenha uma causa, uma vez que não é doença. Homossexualidade é parte da personalidade da pessoa.
A escola e a universidade têm uma função precípua: ensinar a pensar, a buscar informações e ir além destas, questionando-as e transcendendo-as. Assim, é preciso levar os alunos a relacionarem os fatos aprendidos com outros dados e situações, a questionarem e a compararem falas de palestrantes diversos, de pensadores e autores variados, levantando hipóteses e desenvolvendo a capacidade de observação. Mesmo para ler a Bíblia é preciso pensar, compreender a cultura da época em que ela foi escrita e saber ver a relação das ideias com a cultura. Se não ensinamos a pensar, nossas crianças vão crescer vulneráveis à dominação e à domesticação, muito comuns hoje, na maioria das igrejas, sobretudo nas neopentecostais.
A escola que não ensina a pensar faz de seu aluno presa fácil de lavagem cerebral. Desde o início da educação infantil, sem medo, é preciso esclarecer às crianças que as pessoas são diferentes, inclusive, no quesito sexual, e que há pessoas que são heterossexuais, homossexuais, travestis e transexuais. Estar bem informado e compreender esta questão não transforma ninguém em gay, lésbica ou travesti. Ao trabalhar estas verdades que fazem parte da vida, a professora contribui em dois pontos: diminui a homofobia e auxilia possíveis pré-adolescentes e adolescentes, que estejam se percebendo com atração homoafetiva, a compreender sua condição e a aceitar-se, o que é pré-requisito para o desenvolvimento de sua identidade pessoal e, consequentemente, para que possam se tornar adultos capazes de amar a si e aos outros. Psicólogos e demais profissionais que cuidam das pessoas com base na ciência, ao invés de pautar-se na noção de desvio moral e de pecado, também estão auxiliando nos dois pontos citados e cumprindo seu papel com honradez.

MARY NEIDE DAMICO FIGUEIRÓ
é psicóloga, doutora em Educação e professora sênior na Universidade Estadual de Londrina

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