ESPAÇO ABERTO - Porta arrombada, tranca de ferro?
O País está profundamente consternado, e não poderia ser diferente, com a tragédia ocorrida na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, um trauma social pesado e muito difícil de ser aceito, especialmente pelos pais, parentes e amigos dos falecidos. Depois do ocorrido, como sempre acontece com uma multiplicidade grande, são expressas as intenções de rever leis e ações, realizar vistorias e, talvez, autuar os infratores, com relação aos ambientes para reuniões de grandes números de pessoas, seja para que atividade for. Mas por que as ações só aparecem depois do desastre?
No Brasil, há um problema também extremamente sério, o da educação, ao qual poucos se dão conta e que, por isso, não temos ainda ideia da sua magnitude. Há pouco menos de 50 anos, vivemos com ações político e socioculturais agindo sobre ela, as quais foram trabalhadas, ao longo desse tempo, para essa perda de qualidade.
O país foi levado e ainda está nesse tenebroso caminho para um emburrecimento. A escola pública ficou muito ruim. Apenas recentemente isso tem sido discutido nos órgãos de imprensa e em alguns ambientes culturais, com críticas e denúncias à qualidade dessa atividade formadora de cérebros, mas que aqui, por procedimentos falhos, não ensina a pensar e produziu um povo que pensa pouco e, por isso, não cobra, o que facilita certos governantes. Essa não cobrança faz com que as leis sejam descumpridas, pois não há uma política realmente punitiva.
A solução é trabalharmos na formação de uma escola de qualidade desde a pré-escola, ensinando princípios de comportamento e capacidade de pensar as nossas crianças, para produzirmos adultos capacitados e com consciência das realidades da vida.
Em levantamento realizado por especialistas ingleses, relativo à qualidade do ensino, em 40 países, o Brasil alcançou a vergonhosa situação de penúltimo classificado. Alia-se a isso, os altíssimos porcentuais de analfabetismo e o triste analfabetismo funcional que é o ler e não entender.
No que tange ao Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), das redes municipais com maior piora de desempenho, no quadriênio 2007-2011, Londrina, o nosso querido município, foi o segundo classificado, com esse índice passando de 4,0 para 3,6 (redução de 10%).
O exame da OAB tem mostrado, nas mais recentes avaliações, percentuais de aprovação abaixo de 20%, o que permite pensar no que ocorrerá se uma avaliação semelhante for feita para todos os estudantes dos mais diversos cursos superiores do país, provavelmente ocorrerá um desastre intelectual.
Nesta FOLHA, dia 20/1, um especialista disse que a escolha do curso superior deve ocorrer no curso médio. O atual processo não facilita isso. Até a década de 1960, no curso médio havia três principais cursos, magistério, científico e clássico. Dos últimos, os interessados em biológicas e exatas cursavam o segundo e os com tendências às humanas, o terceiro. Assim, havia o espaço de três anos para a escolha. As reformas somadas à desqualificação crescente dos professores impediram isso depois do início da década 1970 e "deu no que deu".
Há urgência na melhoria da qualidade do ensino que deve dar muita atenção ao ensino fundamental. Os demais também têm de receber especial atenção, mas os alicerces devem ser bem preparados para suportar as alturas dos diferentes "edifícios" a serem buscados. Londrina, com a união de todos na discussão deste problema e através de uma atividade pedagógica bem feita por professores e de acompanhamento e participação dos pais, pode se transformar em um centro de excelência educacional. Isso depende de um trabalho pedagógico sério e consciente. Convidemo-nos todos a pegar esta bandeira na busca do conhecimento.
LÉO PIRES FERREIRA
é engenheiro agrônomo
e pesquisador aposentado
da Embrapa Soja em Londrina





