ESPAÇO ABERTO - Por um lugar de conforto
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 12 de abril de 2005
Jonathan Menezes 
O conforto é uma das grandes ambições do ser humano, um verdadeiro lema de vida. Caminhamos em uma busca quase perene por uma espécie de ''paraíso perdido'', como se Adão e Eva tivessem se arrependido de conhecer o ''lado sombrio'' da existência - tendo, porém, de se contentar em trabalhar pra sobreviver às custas de seu próprio suor, em saber que todo prazer relativo a esta vida é efêmero e que nada mais será como ''passado'', quando predominavam a inocência e a despretensiosidade - e nós continuando a escrever a história desta saga errante. É óbvio que o conforto é bom, isso ''ninguém pode negar''. Contudo, há pelo menos dois enganos comuns referentes à palavra conforto: o primeiro deles diz respeito à ânsia humana por um lugar confortável no mundo.
Constantemente nos prendemos a tentativas, quase sempre malsucedidas (salvo engano), de evitar a realidade, de enxergar situações cotidianas como elas são e acontecem, de saber que nosso mundo está repleto de dores por todos os cantos, dores estas que começam, tantas vezes, dentro de nossos seguros lares, com nossas famílias e seus dilemas, até chegar nos problemas da sociedade como um todo (e aqui não defendo um determinismo do tipo causa-efeito). Violência, guerra, desemprego, miséria, gente mendigando pelas ruas, morte; quem é que gosta de encarar todas estas conjunturas? Estamos sempre evitando situações que possam nos causar aquele tipo de desconforto insuportável, o que toca em nosso âmago egocêntrico.
A este engano, segue um outro que costuma atingir nove entre cada dez pessoas, supostamente falando, que é a busca por um lugar confortável ao lado de Deus. Nosso comprometimento com Deus (o deus-ópio dos anseios humanos) está permeado por um ligeiro utilitarismo, seja proposital ou não. Amar ou se submeter a Deus há muito tempo deixou de ser uma questão de entrega pessoal, passando a ser um condicionante circunstancial, isto é, só amo ou sigo a Deus enquanto ele me for útil ou conveniente. Assim, as expectativas geradas estão de acordo com a concepção de que, ao lado de Deus, sempre encontraremos conforto e ''favor'' em todas as situações. Isto é uma grande falácia, posto que com Deus (ou ''sem Deus'') a vida não é feita apenas de ganho e refrigério, mas também de perdas, descontentamentos e consternações. Paulo, o Apóstolo, que o diga. Basta lermos suas cartas para vermos quão furadas são algumas teologias e quão charlatões são alguns líderes (gurus) espirituais de hoje em dia quando tratam da vida cristã.
É lógico que, em variadas circunstâncias encontradas na Bíblia, Deus mantém as promessas de que, a seu lado, encontraremos conforto no enfrentamento de nossas angústias. Todavia esta segurança não nos exime da dor, apenas a alivia e dá a ela renovada perspectiva; não nos livra das idiossincrasias e inconstâncias de nosso mundo, mas nos ensina a enfrentá-las com discernimento, entendendo que fazem parte da vida. O mundo está em constante distúrbio, e assim permanecerá. Portanto, não há lugar suficientemente confortável no mundo real, a não ser que optemos pela alienação, pelo ópio, ao invés de aprofundarmo-nos na realidade, progredindo espiritualmente, porém, com os pés-no-chão.
JONATHAN MENEZES é estudante de Teologia na Faculdade Teológica Sul-Americana em Londrina


