A última eleição em Londrina deixou uma forte evidência: adoramos um ''bom corrupto''. Independentemente das qualificações pessoais de cada candidato, ou do que cada um pôde realizar efetivamente pela cidade, um deles tinha uma marca distinta: fortes indícios de envolvimento com a corrupção pesada, fator mais que suficiente para, teoricamente, fazer dele um ser no mínimo moralmente desprezível. Apesar dessa constatação, amplamente divulgada nos meios de comunicação locais e nacionais, o referido candidato sempre esteve à frente nas pesquisas e só perdeu a eleição no último instante - e por uma pequena diferença.
Uma vez que os números das urnas nos remetem a essa realidade incontestável, passei a me perguntar o que teria levado quase metade dos votantes (e não pode se afirmar que estes não estavam cientes daqueles lamentáveis fatos) a fazer a opção por um candidato notoriamente mais comprometido com os interesses pessoais, em detrimento daqueles que representa.
As justificativas apresentadas por aqueles que escolheram o referido candidato, tais como ''rouba mas faz'', ''é tudo intriga da oposição'', etc., apenas encobrem motivações mais profundas e inconfessáveis. Acredito mesmo que isso não sirva para todos, que os eleitores desse candidato populista tinham uma verdadeira adoração não pelo candidato em si, mas pelo que ele representava, e acredito que isso não é pouco.
Não é novidade para ninguém que nossa existência, apesar de nossos esforços para torná-la mais suportável, nos impõe limites indesejados, exige infindáveis renúncias e tarefas penosas e intermináveis. Procuramos incansavelmente a felicidade por todos os lados, ávidos por dias melhores. Criamos deuses, atribuímos a eles a capacidade de reconhecer nosso sofrimento e suplicamos por sua misericórdia para compensações após nossa morte. Também elegemos ídolos e os afastamos imaginariamente da condição dos simples mortais ao reverenciá-los como semideuses. Enfim, fazemos de tudo para acreditar que, se ao menos um de nós escapa às limitações da vida, quem sabe ele abra as portas para nós.
Será que nosso corrupto nacionalmente conhecido não representa justamente esse indivíduo que, apesar da origem ''humilde'', conseguiu vencer na vida sem ter de fazer muitas renúncias e não titubeou diante do seu desejo de riqueza rápida e fácil, independentemente do prejuízo que causou? Será que ele não representa apenas os desejos mais secretos da grande maioria de nós diante das dificuldades existenciais, já que ansiamos por uma vida sem limites, com poucos esforços e muitos prazeres?
Como isso é impossível para todos, pois acabaríamos com a civilização, que tal elegermos um que represente aquilo que tanto secretamente desejamos?

VALDEMIR LEONARDE é psicólogo em Londrina

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