ESPAÇO ABERTO - Por que dizer que Deus não existe
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de janeiro de 2005
Luiz Carlos Ferraz Manini 
Como poderia começar estas linhas? Dizendo: lamentável, professor Aguinaldo Pavão. No mínimo. Quando li o artigo do professor, ''Tsunami e a bondade de Deus'', perguntei a mim mesmo: onde está a liberdade de culto e crença? Por que o acadêmico, que primeiro se isenta de culpa, dizendo que acreditar ou não em Deus não é o ponto principal da discussão, diz que duvida muito de que ele exista?
Não posso dizer que sou ateu; aliás, odeio rótulos. Tenho concepções próprias. E penso que Deus realmente existe, para aqueles que nele acreditam. Vivemos em um mundo que gira em torno de sistemas de coerências: cada pessoa tem em suas mãos uma quantidade e qualidade tal de informações que tornam o que ela acredita, real ou não. Exemplifiquemos: podemos provar que Deus existe ou não. O que muda? O conceito da prova, o modo como cada um irá entender os acontecimentos ao seu redor.
O ataque do sr. Pavão às crenças foi inconsequente. Que ele se questione sobre a existência de Deus, bem, cada um acredita ou duvida da que quiser. Mas atacar publicamente o único amparo que milhões de pessoas possuem (já que depender do governo é uma penitência muito maior e mais pesada), considero falta de ética. Onde está o culto da diversidade que a universidade prega?
Então, o academicismo rompe o silêncio irresponsável para vir a público dizer que Deus não é bondoso que é maldoso ou que raios quer que seja? Posição temerária, pois o grande mote da universidade, principalmente nos cursos de ciências humanas (e o professor deveria saber disso) é pregar a diversidade. Diziam os Beatles: Live and let die. Viva e deixe morrer. Importe-se com aquilo que diz respeito a você. Atacar a crença alheia é crime, previsto na Constituição Federal de 1988. Será que o professor tem conhecimento? Ou somente conhece as leituras que fizeram dele um acadêmico, considerado elite intelectual do país?
Vivemos em uma sociedade de liberdades. Liberdades essas que talvez venham tão avassaladoramente que não sabemos o que fazer com elas. Estamos em uma época de informação, todos podem procurar o que querem e o que não querem ver, ler e ouvir. Mas devemos nos preocupar, realmente, em alertar sobre as mazelas da nossa sociedade, sobre o que se faz e o que não se faz pelos pobres, por aqueles que têm fome que serão atingidos se o mínimo vendaval atingir suas casas, se as têm. Discutir se Deus existe ou não, se é bondoso ou não, se é atento ou não, se é seletivo ou não... Francamente...
LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina


