ESPAÇO ABERTO - Por mais empatia e gentileza nas relações humanas
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de abril de 2019
. 
O primatólogo e etnólogo Frans de Waal defende em seu livro “A era da empatia: lições da natureza para uma sociedade mais gentil” a tese de que, diferentemente do que sempre fomos conduzidos a pensar, a sociedade não é uma mera reprodução da natureza. Se opondo ao coro de conservadores darwinistas sociais que ainda creem que “a natureza é uma luta pela vida, um terrível processo de competição e precisamos imitar isso na sociedade”, de Waal propõe a nós basicamente a seguinte reflexão: temos uma grande tendência para com a cooperação, verdadeira essência do ser humano. Assim, a competitividade alimentada pela dinâmica do capital teria que dar lugar a empatia e gentileza nas relações humanas, ainda mais em um momento em que temos acesso a tanta informação.
Exemplos de práticas vinculadas a empatia neste início de 2019 não faltam: os bombeiros e voluntários que trabalharam arduamente em Brumadinho; os jovens que se esforçaram para salvar seus colegas no centro de treinando do Flamengo; Leilane Silva e o socorro prestado às vítimas do acidente que matou o jornalista Ricardo Boechat; Luciano Macedo que perdeu a própria vida ao tentar ajudar Evaldo Santos, executado no “incidente” em que fora alvejado junto com sua família por 80 tiros de fuzil. Inúmeros são os exemplos que poderiam ilustrar que o “se colocar no lugar do outro”, independentemente de sua cor, religião, classe social, perspectiva ideológica, deveria ser compreendido como um preceito básico nas relações humanas.
O problema é que, pelo fato de vivenciarmos neste início de século um efervescer dicotômico que contribuiu para o aflorar de ideias e comportamentos extremistas, está cada vez mais difícil imaginar uma sociedade em que empatia e gentileza seja premissa básica em nossas relações.
Neste jogo, em que o mais fino ódio é apresentado nas mais diversas plataformas virtuais, é muito fácil confundir direito de expressão com um valetudismo que relativiza, exclui, humilha, reforça estereótipos pejorativos, desqualifica profissionais, ataca minorias, enfim, atitudes que em nada colabora para uma vivência democrática em uma sociedade que está aprendendo a se comportar democraticamente. E aí, o xingar e depreciar o inimigo ideológico, e não meramente um possível adversário no campo das ideias, vem se tornando prática corriqueira.
Na cidade do Rio de Janeiro do final do século 20, era comum encontrar pelas ruas um personagem icônico, quase que folclórico no imaginário carioca, o profeta Gentileza. Ao longo dos aproximadamente 2 km de extensão que tem o viaduto do Caju, José Datrino (nome de nascimento de Gentileza) escreveu mensagens em que destaca a importância do amor, caridade, empatia e, claro, gentileza entre os seres humanos. A cantora Marisa Monte, na canção “Gentileza”, abismada com o ato empreendido pela cia. de limpeza urbana do Rio de apagar as mensagens, canta com pesar esta ação, destacando que “apagaram tudo, pintaram tudo de cinza, a palavra no muro ficou coberta de tinta”. Graças a uma intensa mobilização popular, os escritos do profeta foram restaurados.
E a mensagem mais popular de Gentileza, “Gentileza gera gentileza”, representa muito bem a postura empática que todos nós deveríamos colocar em prática em nosso dia a dia no combate das mais distintas formas de violência: seja os atos violentos ligados ao ataque físico propriamente dito, como também a violência das palavras e atitudes, que denigre o próximo mas se tornou recurso muito utilizado por pessoas que se aproveitam do mundo virtual para expressar de maneira grotesca a “sua opinião”. Se prender quem assim se comporta é censura, vai contra o “direito de se expressar” de cada um, compactuar ou relativizar tais práticas (“mas é só brincadeira...”) no mínimo contribui para a degeneração de nossa tão frágil democracia.
LEANDRO CESAR LEOCÁDIO, professor de História e mestre em História Social pela Universidade Estadual de Londrina.


