É famosa a máxima ''não basta à mulher de César ser honesta, ela tem de parecer honesta''. Na esfera política também é preciso que as pessoas investidas de autoridade pareçam honestas. Se entendermos a honestidade como sinônimo de virtude moral, poderíamos inclusive afirmar que nem é necessário, para a política, que sejamos virtuosos, basta a aparência. Não é necessário, no domínio dos negócios públicos, para lembrar Kant, agirmos por dever; é suficiente agirmos apenas conforme o dever, independente de nossas motivações.
Uma acribia moral, isto é, um juízo intolerante e extremo sobre o caráter das pessoas, tendo em vista certos deslizes de comportamento, pode até ter algum cabimento, mas apenas no domínio privado - embora, mesmo aqui, eu ache um exagero. Aristóteles estava certo ao sustentar que não podemos julgar o caráter de uma pessoa por uma ação isolada. É bem provável que o senhor Waldomiro Diniz, no escândalo que repercute na mídia até hoje, não tenha ingressado no mundo da corrupção através apenas dos fatos divulgados, ou seja, mediante seu encontro com um empresário do ramo das loterias com o qual negociava propina para, ao que tudo indica, campanhas eleitorais, fato registrado por uma câmera oculta.
No entanto, é possível, e eu apostaria nisso, que o ministro da Casa Civil, José Dirceu, não seja um indivíduo corrupto. Ainda assim, é inegável que ele deixou de ser, para os cidadãos brasileiros em geral, um político digno de confiança. Pelo menos provisoriamente pesa sobre sua pessoa a dúvida sobre se ele realmente nada sabia a respeito das atividades ilegais de seu subordinado. É certo que José Dirceu cometeu o erro de escolher como auxiliar alguém presumivelmente não comprometido com a moralidade pública. Mas esse é um erro que não pode ser considerado, por si só, uma falta moral. Todos nós podemos nos equivocar em nossas escolhas e nem todas as nossas escolhas têm um sentido moral.
Do ponto de vista moral, todos somos falíveis - essa é uma verdade trivial. Se, por acaso, nossa vida cotidiana fosse vigiada, sem que soubéssemos, por câmeras, estaríamos todos perdidos. Lembremo-nos da alegoria que nos conta Platão sobre o anel mágico de Giges. Este anel tinha o poder de tornar as pessoas que o possuíam invisíveis. Dificilmente, argumenta Platão, o homem justo, da posse desse anel, permaneceria no caminho da justiça. É realmente improvável, num cenário hipotético de absoluta impunidade, que as pessoas se conservem nos trilhos da moralidade.
Supondo que o ministro não sabia com quem realmente estava lidando, ele deve ser moralmente isentado. Agora, o ponto no fundo não é moral, é político. O que deve, portanto, interessar nessa discussão diz respeito a como os atores políticos devem se comportar. Eles devem certamente aparentar moralidade. Eles devem fundamentalmente inspirar confiança nos cidadãos. Ora, somente uma investigação profunda, uma CPI por certo, pode restituir a confiança moral que o ministro e mesmo o governo perderam com esse episódio.
AGUINALDO PAVÃO é professor de Filosofia na Universidade Estadual de Londrina

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