ESPAÇO ABERTO - Polícia, violência e racismo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 12 de março de 2004
Francisca Vergínio Soares 
No último mês um dentista foi brutalmente assassinado em São Paulo por aqueles que deveriam assegurar sua vida. Até mesmo o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, afirmou ter havido indícios da ''presença de preconceito racial'' na morte de Flávio Ferreira S'antana já que ele era negro. O ministro classificou o crime como ''tragédia'' e ''caso deplorável''. Ele foi morto a tiros por policiais militares, que o teriam confundido com um assaltante. Os elementos sensíveis e exteriores mostram presença do preconceito, do conceito de que o negro é sempre suspeito lamentou Bastos.
O comandante-geral da PM de São Paulo, coronel Alberto Silveira Rodrigues, afirmou que a versão de resistência seguida de morte apresentada pelos policiais não é verdadeira e os seis policiais suspeitos de envolvimento no caso foram presos.
Memorizemos, outros casos, por exemplo, o do comerciante chinês Chan Kim Chang no Rio de Janeiro morto em agosto último; o caso de Leandro Santos da Silva, 24 anos, guardador de carros, morador do subúrbio morto por dois disparos no final de novembro de 2003 após denunciar à Inspetoria Geral da Secretaria de Segurança Pública práticas de tortura e uma tentativa de extorsão de R$ 2 mil por oito PMs do 16º BPM.
De acordo com o secretário de Segurança Pública, Anthony Garotinho, os policiais militares forjaram um confronto com o rapaz para justificar sua morte. Os oitos PMs foram presos, sendo um tenente, três sargentos e quatro soldados. Outro caso de grande repercussão também no Rio foi do estudante Rômulo Batista de Melo, 21 anos, que teve ''traumatismo cranioencefálico e hemorragia intracraniana'', consequência de agressão também por policiais.
Diante do quadro anômico em que se encontra a instituição Polícia, em dezembro último o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, declarou: ''Estamos deixando bem claro que todos aqueles que se desviarem do código de ética e de conduta civil imposto aos policiais civis e militares vão pagar muito caro. Aconselho que aqueles que acham que conseguem burlar a lei repensem suas atitudes''.
Nesta ocasião a Corregedoria descobriu mais 20 policiais militares praticando delitos. Sete deles negociaram a libertação de um traficante preso em Vila Isabel, mediante o pagamento de R$ 20 mil. Em outro caso, um soldado negociou a venda de armas e munição para um traficante da Ilha do Governador.
Em síntese, é preciso um longo espaço para elencar as infindáveis vítimas que morrem constantemente sob a tutela daqueles que fazem juramento de salvaguardar vidas. Notem que as vítimas a que nos referimos não eram bandidos ou pessoas que ameaçavam a ordem social, eram cidadãos comuns que podem ter cometido delitos sim, mas nada que justifique atitudes abusivas por parte daqueles que se intitulam policiais.
É preciso que a prática de crimes por esses agentes como: homicídio qualificado, sequestro, violência, furto, concussão, corrupção, abuso de autoridade, tortura e formação de quadrilha, etc, sejam punidos para que os policiais honestos e cientes de sua profissão sejam diferenciados daqueles que denigrem a instituição.
FRANCISCA VERGÍNIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais e professora universitária em Londrina


