Escrevo este artigo ainda sob o frescor de arguições feitas a mim sobre os dois últimos artigos abordando o tema ''polícia'' e que foram expostos neste mesmo espaço. As arguições vieram, sobretudo de profissionais da própria instituição, alguns dos quais mantenho contato e que ponderaram se reflexões críticas a ela não piorariam sua imagem. Obviamente que o objetivo não é este, mesmo porque a imagem que a sociedade tem da instituição é o resultado da atuação daqueles que a representa. Observem os recentes acontecimentos envolvendo crimes praticados por agentes policiais nos diferentes pontos do País, inclusive em Londrina.

O problema extrapolou as instâncias nacionais. Em fevereiro último, por exemplo, a política de Segurança Pública do governo fluminense ganhou projeção internacional duas vezes. Na segunda-feira de Carnaval, foi divulgado o relatório da Anistia Internacional, condenando os altos números de mortes causadas por policiais. Na ocasião, em Washington, Estados Unidos, o secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, lançou o relatório especial de Direitos Humanos no qual a polícia fluminense é acusada, entre outros crimes, de tortura e formação de esquadrões da morte.

O documento, intitulado Country reports on Human Rights Practice (Relatório sobre prática dos direitos humanos nos países), detalha a violência cometida por policiais em diversos estados brasileiros, com ênfase especial para o Rio de Janeiro, colocado como o estado que tem forças de segurança mais violentas. ''Forças policiais do estado cometem diversos assassinatos extrajudiciais, torturam e espancam suspeitos sob interrogatório, além de fazerem prisões e detenções arbitrárias'', relata o documento do Departamento de Estado norte-americano.

A propósito, a Promotoria de Investigação Criminal (PIC) protocolou no dia 26 de março último, junto à 1 Vara Criminal de Curitiba, denúncia contra os cinco policiais militares que teriam ateado fogo num adolescente, em 19 de janeiro, todos atualmente presos no Quartel do Batalhão da Polícia de Guarda. Foram denunciados pelos crimes de tortura e tentativa de homicídio triplamente qualificado (por utilização de crueldade, torpeza e recurso que impossibilitou a defesa da vítima).

Enfim, com o fim do ciclo militar, o Brasil começou a experimentar a democracia e com isso as instituições, no caso, a polícia, passaram a ter maior visibilidade graças à atuação dos diversos meios de comunicação. Também os indivíduos passaram a denunciar mais, uma vez que em muitos lugares criou-se a chamada Ouvidoria.

Tem-se então o reconhecimento por parte dos cidadãos que, no âmbito da polícia, suas ações poderiam ser mais cautelosas, como desabafou o avô do adolescente de 15 anos, Marcelo Cléber Pires, morto pelo Pelotão de Choque (Rone) da PM de Londrina no último dia 30 de março: ''Não poderiam ter dado um tiro apenas para imobilizá-lo, em vez de sete?'' Tiros que atingiram os pulmões, as regiões do miocárdio (junto ao coração) e o baço, segundo laudo do IML. É pedir demais para que os avós entendam que a ação dos PMs foi ''técnica, correta e legal''.

FRANCISCA VERGÍNIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais e professora de Ciência Política e Sociologia Jurídica em Londrina

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