ESPAÇO ABERTO - Plano real: o que mudou?
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 02 de julho de 2004
René Ruschel 
Durante décadas os governantes brasileiros afirmaram que o câncer responsável pela corrosão do país era a inflação. Todas as mazelas sociais tinham como causa a chamada ''inércia inflacionária'' e o paraíso só seria alcançado quando houvesse estabilidade econômica. À época, o argumento fazia sentido. Na década anterior à implantação do Real - 1984-94 - a inflação no Brasil atingiu a estratosférica marca de 310 bilhões por cento; nos dez anos seguintes - 1994-2004 - chegou a 167%.
Mas afinal, se o dragão da maldade foi alvejado com a estabilidade econômica por que o Brasil cresceu tão pouco nestes anos? Talvez a resposta mais convincente seja não de um adversário mas de um dos idealizadores do Plano Real, Edmar Bacha, ao dizer que a experiência mostrou que ''não basta o fim da inflação para voltar a fazer o país crescer (...) não basta formar capital (...) é preciso que ele seja aplicado produtivamente''.
Qualquer economista é capaz de citar uma dúzia de razões para justificar este longo período de estagnação. As crises externas, a supervalorização da moeda, a exagerada abertura do mercado interno, a dívida interna, enfim, o leque de opções varia de acordo com os interesses de cada segmento. No entanto, os resultados desta engenhosa operação mostram que, apesar da razoável e aparente estabilidade econômica, o Brasil vive uma profunda instabilidade social. Uma pesquisa, mesmo aquelas feitas nas mesas do botequim da esquina, comprova que a maioria da população se diz saudosa dos tempos que o desemprego não atormentava o sono de milhões de trabalhadores e muitos ainda insistem em afirmar que seria melhor conviver com uma inflação controlada.
Após uma década, salvo os primeiros anos quando o frango tornou-se o símbolo da fartura para a tigrada enquanto a classe média se fartava em Miami, os índices econômicos continuam péssimos. Se a inflação foi reduzida a níveis de primeiro mundo a renda liquida dos trabalhadores caminhou em sentindo oposto - segundo dados oficiais encolheu 14% no período - e hoje temos uma das piores distribuições de renda do planeta.
O salário mínimo verde-amarelo acaba de ser reajustado para R$ 260 (US$ 84), enquanto nos EUA a média é R$ 2.750 (US$ 890) e na Comunidade Européia R$ 3.780 (US$ 1.216). O desemprego teve um aumento médio de 7,76% ao ano e as taxas de juros são extorsivas. Talvez isso justifique por que os bancos continuam ganhando tanto. O lucro liquido das dez maiores instituições do país, em 1994, foi de R$ 3,67 bilhões; em 2003, R$ 14,61 bilhões, ou seja, um acréscimo de 298,09%. Os indicadores sociais são os piores possíveis e dispensam qualquer comentário.
O Plano Real deu mostras que a estabilidade da moeda era apenas uma condição necessária, porém não suficiente. No passado o vilão era a inflação; agora são os juros. Mas o país continua mergulhado numa crise ainda pior.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba


