ESPAÇO ABERTO - Perfis acima das idéias
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segunda-feira, 03 de maio de 2004
Gaudêncio Torquato 
A crítica que se faz ao governo do PT, de que não tem um projeto estratégico para o País e sim um projeto de poder de longo alcance, a cujo coro se integrou a voz autorizada do ex-presidente Fernando Henrique, em seu artigo no O Estado de S.Paulo, de 04/04, revela nuances da crise da representação política que, a cada eleição, se mostra mais aguda no País. Desde muito, elegem-se no Brasil personalidades e não programas, fulanos e não idéias, apesar de se verificar, nos últimos tempos, um movimento circular, com origem nos segmentos centrais da sociedade, que começa a abrigar correntes críticas preocupadas com a substantivação da nossa democracia representativa. A verdade é que a maior base do eleitorado brasileiro cumpre papel essencialmente reativo, escolhendo à base da emoção, na esteira de uma cultura social fortemente imbuída de expectativas de paternalismo estatal.
Se, na acepção de Maurice Duverger, ''para libertar o homem é preciso reduzir o poder público'', entre nós essa possibilidade ainda é bastante remota. O Estado continua regrando costumes e ditando práticas políticas, mesmo que se reconheça a diminuição de seus limites, seja pela via da abertura econômica dos tempos de Collor ou dos programas de desregulamentação da economia e privatização da era FHC. A centralização das operações políticas no Executivo, tão criticada na administração anterior, à qual se cunhava a pecha de ''presidencialismo imperial'', se adensa no governo Lula, que não apenas bate recorde na emissão de Medidas Provisórias como se inclina ao retrocesso de ''engordar o Estado'', promovendo a contratação de milhares de servidores para diversos setores da estrutura governamental.
Sob esse padrão de presidencialismo assistencialista, onipresente e onisciente, ancorado em expansivo poder legiferante, ganha densidade o perfil pessoal do dirigente. Acrescente-se a esse aspecto o fato de que Lula é um ícone de quatro letras fáceis de soletrar, com história pessoal que ainda desperta certo impacto e estilo que chama a atenção pela aparente determinação de dizer o que lhe vem à cabeça, doa a quem doer. Não se atordoa com críticas sobre promessas e idéias que se mostram inócuas, continuando a jurar que resolverá problemas de todo o tipo.
Ademais, outra ''qualidade'' do líder messiânico é a de se atribuir o papel de ''salvador da Pátria''. Ao dizer que ''essa gente que desde Cabral governa o Brasil'' quase nada fez, não podendo cobrar dele o que ''eles não fizeram em 500 anos'', Lula tem sido injusto com muitos governantes e um aluno desleixado de história.
Eleito com 54 milhões de votos, oferecidos, convenhamos, mais ao simbolismo da mudança imanente à pessoa do que às fantasiosas idéias de exuberantes programas de TV, Lula nem por isso deve se considerar a divindade toda-poderosa como insiste em querer se apresentar. Carece daquela simpatia e modéstia que irradiava o sorriso franco de Juscelino. Ou da autoridade engessada no perfil de um Jânio.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor da Universidade de São Paulo e consultor político


