ESPAÇO ABERTO - Pelé chorando sobre o leite derramado
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quarta-feira, 04 de agosto de 2004
Narciso Ferreira 
Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, em entrevista no programa ''Altas Horas'' da Rede Globo do último sábado, foi questionado pelo apresentador Serginho Groinsman se havia deixado para trás algum projeto não-realizado. Disse, lamentando, que pecou por não ter insistido na sua idéia, na década de 70, que pudesse resolver de vez o problema da educação da criança e do adolescente no Brasil. Na época, foi muito criticado pela imprensa e por alguns grupos ao dar entrevistas sobre um modelo educacional abrangente. Políticos e até mesmo por parte da liderança negra nacional o criticaram.
Pelé pecou quando deixou passar esse trem da oportunidade. Com a sua influência e acesso à mídia poderia ter insistido nessa idéia. Assessorado por pessoas capacitadas, políticos, técnicos da área educacional teria criado um novo modelo de ensino para o país.
Se Pelé tivesse sido mais nacionalista e menos preocupado com a sua carreira empresarial e tivesse avançado na sua idéia, hoje os negros não precisariam passar por essa situação humilhante de ter cotas reservadas para entrar nas universidades. Não teríamos que ouvir de um membro do Conselho Universitário da Universidade Estadual de Londrina (UEL), apoiado pelo presidente da Ordem dos Advogados da Subseção de Londrina, a lamentável previsão de que o sistema de cotas poderá reduzir o nível de qualidade de ensino na nossa universidade. Essa previsão é puro preconceito racial.
O negro é tão inteligente quanto as outras raças! A incapacidade intelectual do negro não é por falta de inteligência, mas por falta de educação escolar. Com a palavra os meus ex-professores do primário, secundário e colegial da cidade de Adamantina, no interior de São Paulo, e os do curso de Direito da UEL. Perguntem a eles se eu e outros tantos negros espalhados pela nossa grande Londrina, hoje bons profissionais nas suas respectivas áreas, éramos incapazes intelectualmente?
Retomando a entrevista com o Pelé. Ele não disse, mas se tivesse avançado na sua proposta de ensino na década de 70, os governos teriam construído muitas escolas. Escolas para todos, com tempo integral e hoje, com certeza, não estariam construindo cadeias e penitenciárias aos montes.
Como a idéia do Pelé não vingou, as lideranças negras precisam pedir também reservas de cotas para negros. Começando pelas creches, escolas de pré-ensino, colégios, universidades e, depois, cotas nos concursos públicos. É isso mesmo! Trabalho para negro no nosso país só através de concursos e cotas!
Este é o caminho. Será uma espécie de indenização por danos morais em favor de uma raça que não pediu para vir ao Brasil. Veio presa, acorrentada. Solta, libertada, não lhe foi dada a oportunidade de voltar ao país de origem. Continuou aqui, trabalhando de graça para os poderosos da época. E continua, hoje, escravizada pelas razões que todos já conhecem.
NARCISO FERREIRA é advogado em Londrina


