ESPAÇO ABERTO - Paulo Andre Chenso
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 31 de março de 2021
Agnaldo Kupper 
Escamotear a morte talvez esteja relacionado à incapacidade de lidar com a vida, coisa que Paulo André Chenso, médico (sua principal ocupação), historiador, artista plástico, escritor, professor, nunca fez. Tinha consciência da defunção, o que o fez levar uma vida autêntica, distante de valores como poder, fama e acúmulo de bens. Como bem indica Saramago (mesmo que não exatamente com estas palavras), quando nascemos fazemos um pacto com a vida, mas pode acontecer que perguntemos “quem assinou isto por mim”. Fato é que a vida começa não se sabe para quê e termina não se sabe por qual razão.
Entendo os lamentos das Mariângelas, das Marinas, dos Andrés, dos Paulinhos do Brasil, inconsoláveis com a ausência física, em especial de humanos dignos como Chenso. Tenho a clareza que a morte encobre defeitos e exalta virtudes, mas, no caso dele, a análise não se confirma. Conviver com sua figura sempre foi prazeroso. Mesmo! Os que tiveram a satisfação podem confirmar, independentemente de sua deliciosa impaciência, fruto de sua costumeira objetividade.
Poderia (e talvez devesse) buscar culpados pela sua perda prematura: a coincidência de termos um presidente negacionista apoiado por seguidores que só desejam ver o que lhes interessa, a falta de sensibilidade de quem permite que sejam destacados profissionais mais vulneráveis na linha de frente no combate ao vírus e suas cepas, a necessidade de sobrevivência e até mesmo o lema revolucionário francês que, com sua “liberdade, igualdade e fraternidade”, inspira o valor do individual ocidental em detrimento do coletivo, impedindo a consciência de que o outro interessa. Mas não é o caso, nem o momento.
Chenso ensinou-me, como a muitos, que não é o capital econômico o diferencial, muito menos o capital social, mas o cultural. Esteve o tempo todo à margem de imposições de visões, embora as suas fossem bem nítidas. Sem nunca que tivesse percebido, ensinou-me, também, a procurar aqueles que têm muito a fazer uma vez que os que pouco fazem escondem-se na alegação das “muitas” supostas tarefas.
Argumentos, sempre os tinha, sem generalizações. Ouvi-lo bastava, pelo menos aos ávidos por conhecimento. Um sujeito moral e, como tal, capaz de reconhecer o outro como um outro-eu, da mesma forma importante.
Provando que a amizade é descontínua, em meio à pandemia pouco nos encontramos, mas nunca demos importância às explicações pela ausência já que nunca houve medo da perda e apelo por exclusividade.
Em nossos trabalhos, um sonho: vivermos escrevendo e publicando. Um aceite de alguma editora já nos fazia comemorar, não importando muito os direitos autorais (que neste país resumem-se a uma espécie de gorjeta, sempre em torno de dez por cento). Chenso (nem sempre com minha parceria exploradora) deixou pérolas publicadas. Mas sua obra não acabou, tal a quantidade de materiais que deixou a ser explorado. E serão (caí na besteira de fazer um pacto com ele, o que me dará muito trabalho).
Londrina necessita descobrir seus talentos em vida e espero que não seja por ocasião da morte física. E são muitos (não falo dos que aparecem forçadamente nas colunas sociais, mas dos que deixarão um legado real).
Sua saída de cena dói, doutor.
Ah! Outra coisa que aprendi com você: por mais que busquemos conhecimento, cada vez percebermos saber menos.
Bem, para ir direto ao assunto: Dr. Paulo, o Sr. Incrível, OBRIGADO.
Agnaldo Kupper (amigo do Chenso)


