No ano de 1976, quando cursava Engenharia Civil na Universidade Estadual de Londrina, ouvi um professor afirmar que estava ali, ministrando suas aulas, como favor. Aquilo me revoltou, pois queria me encontrar com mestres que tivessem prazer em ensinar. Decidi então me preparar e exercer a atividade docente com prazer. Durante 35 anos fui professor de disciplinas da área de estruturas no curso de Engenharia Civil da UEL. Hoje sinto-me orgulhoso de encontrar ex-alunos, colegas de profissão, que reconhecem o meu esforço e dedicação ao longo desses anos.

No ano de 1987, logo após a primeira eleição direta para reitor da UEL, tive a oportunidade de ler um livro que me despertou um questionamento sobre aquele processo: "Para salvar a Universidade", de Laurent Schwartz. Nesse livro, o autor faz uma reflexão sobre a organização do sistema universitário francês à época, comparando-a com a das grandes escolas, que possuíam autonomia de gestão e não se sujeitavam às regras do sistema estatal. Enquanto as universidades tinham seus dirigentes escolhidos por processos eleitorais, que em geral privilegiavam a militância política, as grandes escolas tinham seus dirigentes nomeados pelos órgãos aos quais eram vinculadas. A escolha dos dirigentes das grandes escolas era baseada em critérios de competência. Como resultado disso, percebia-se uma clara preferência pelo mercado de trabalho por profissionais oriundos das grandes escolas, em detrimento daqueles formados pelas universidades.

Algumas frases pinçadas desse livro, escrito em 1983, parecem terem sido escritas nos dias de hoje e dirigidas às nossas universidades em crise: "A tendência atual consiste em introduzir muito mais política do que ciência na Universidade"; "A Universidade não está bastante integrada na vida nacional, no mundo produtivo; ela vive voltada para si mesma, e é provavelmente aí que está a fonte de todos os seus males". A consequência da excessiva politização do processo de gestão das universidades na França foi clara: queda da qualidade do ensino e da pesquisa.

Não sei qual é a realidade das universidades francesas nos dias de hoje. Mas tudo indica que nossas universidades são vítimas de decisões semelhantes tomadas por seus próprios membros.

Hoje encontro-me aposentado de minhas funções docentes, mas me considero ainda membro da comunidade universitária da UEL. Durante esses 35 anos sempre ouvi dizer que a razão dos problemas estava na falta de verbas para a Universidade. Nunca percebi nenhuma autocrítica, avaliando como nossas decisões contribuíram para chegar onde chegamos e como poderíamos ter colaborado para reverter a tendência de sucateamento da instituição.

Considero que uma das decisões erradas foi a de acreditar que nossos dirigentes deveriam ser escolhidos por processos democráticos amplos e abertos. "O piloto de um avião não é eleito pelo pessoal de bordo e pelos passageiros." Sem dúvida esse processo eliminou da escolha os critérios de competência para a função. Prevaleceram os acertos políticos, como ocorreu na universidade francesa.
A valorização da competência despareceu também ao se extinguirem processos de avaliação docente, que deixaram de ser aplicados há mais de 20 anos. Sempre me pareceu que os docentes possuíam medo de serem avaliados. Quando o assunto vinha à pauta sempre surgia a pergunta: "Precisamos avaliar o que será feito com o resultado dessa avaliação, antes de implementá-la".

Para salvar a Universidade, é preciso repensá-la, repensar sua forma de gestão e, principalmente, submetê-la a um "banho" de competência e excelência. De nada adiantará termos verbas se não tivermos competência para administrá-las.

VITOR FAUSTINO PEREIRA é engenheiro Civil e foi professor do departamento de
Estruturas da Universidade Estadual de Londrina por 35 anos

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res.
Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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