ESPAÇO ABERTO - Para além de poder e controle
PUBLICAÇÃO
domingo, 10 de abril de 2005
Maria Aparecida Vivan de Carvalho 
A vida do ser humano encontra-se moldada a padrões preestabelecidos, padronizada a papéis designados como vitais para a sobrevivência, homogeneizada para que todos tenham as mesmas oportunidades. Que falácia! Falácia no sentido de que neste processo de padronização e homogeneização não há interesses explícitos de preocupação com o que acontece com as pessoas e com o planeta; há preocupação na defesa de interesses de grandes grupos dominantes. Mas há também verdade nisto, a partir da criação de um pseudo-consenso onde as pessoas são instigadas a acreditar que existe apenas este percurso a ser percorrido e que ele é o melhor, na busca da democratização e da modernização. Cabe-nos perguntar: melhor para quem?
Trata-se de um mecanismo assustador de poder e controle que se perpetua nos países e locais onde reina a ignorância da submissão e da aceitação, sem dúvidas e questionamentos, até porque duvidar e questionar são palavras que não fazem parte da cartilha que está sendo, de forma proposital, cegamente seguida. A política governamental tem permitido a abertura de espaços para decisões e ''soluções'' isoladas, facilmente digeríveis pela comunidade, que se constituem em formas burocráticas de controle, muitas delas mutiladoras de práticas construtivas e de qualidade.
O controle estende-se a atividades extremamente complexas e é utilizado como forma de instigar e reforçar hierarquização, dominação, competição, diferença, desigualdade e exclusão. Em instituições onde o controle é evidente, impõe-se um quadro normativo em que órgãos passam a restringir ações e manipular mentes com fins de vigiar e punir. Desenvolve-se uma estranha dança entre controle e poder, na qual há razões suficientes para crer num falseamento e desvirtuamento de responsabilidades e da democracia.
Neste panorama, torna-se rotineiro observar posturas assumidas com fervor em épocas passadas sendo simplesmente apagadas da memória de pessoas que, no uso de roupagem artificial, destróem, pouco a pouco, com palavras, atitudes e gestos, um trilhar democrático e participativo. Pior ainda: em nome da democracia e da participação!
Percorrendo caminhos tão áridos, em especial no cenário universitário, é possível vislumbrar uma saída no enfrentamento coletivo saudável com dignidade moral e política, no intuito de ir além das perspectivas aqui referidas, resignificando o próprio sentido da palavra democracia.
MARIA APARECIDA VIVAN DE CARVALHO é doutora em Educação pela Unicamp e professora de Anatomia da Universidade Estadual de Londrina


