ESPAÇO ABERTO - Paisagens familiares
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de maio de 2010
Humberto Yamaki 
Humberto Yamaki
Acessibilidade ou paisagem da memória? A discussão sobre o Calçadão de Londrina atinge um momento de impasse. De um lado, o apelo da acessibilidade e, de outro, a frágil questão da identidade e memória. Não seria possível conciliar as duas vertentes?
Em viagem ao Brasil nos anos 30, o antropólogo Levi-Strauss se surpreendia com a precocidade dos estragos do tempo e a falta de vestígios, as marcas do passado nas cidades. No Novo Mundo a passagem dos anos era vista como decadência, ao contrário da Europa onde a passagem dos séculos era uma promoção. E concluía: São cidades novas construídas para se renovarem com a mesma rapidez com que foram erguidas, quer dizer, mal. Mais se parecem com uma feira internacional construída para poucos meses. Após esse prazo a festa termina e o ordenamento primitivo desaparece sob as demolições que uma nova impaciência exige.
As observações de Levi-Strauss permanecem atu-ais. Continuamos apagando vestígios. Em Londrina uma nova impaciência pretende substituir integralmente o Calçadão, do piso peti pavê ao conjunto do mobiliário urbano. Desta vez, além do modismo da revitalização substitutiva, a justificativa única é favorecer a acessibilidade aos idosos, pessoas com mobilidade reduzida e usuários de salto alto.
Estudos recentes relacionam a cidade com a longevidade e ao impacto do crescente aumento de idosos na sociedade. Afirmam os pesquisadores que, as paisagens tradicionais, reconhecíveis e familiares são importantes aos idosos por contribuírem a uma melhor orientação espacial, recuperar a autoestima e oferecer estímulos frente à gradual perda de memória. (Burton, 2004) Atentos a esse fato, alguns Centros de Reabilitação da Doença de Alzheimer, no exterior, tem reconstruído trechos de ruas tradicionais como parte de suas instalações. Utilizam a chamada psicologia ambiental nas terapias. O objetivo é trazer lembranças do passado e fazer com que os pacientes se sintam bem estando em lugares reconhecíveis.
Na impossibilidade de construção de criativos Centros de Reabilitação, algumas de nossas ruas poderiam assumir indiretamente essa função, terapêutica, visando trazer conforto no inevitável processo de perda de memória. É o caso da Avenida Paraná em Londrina, cujo embrião de Calçadão remonta a 1938, quando um trecho foi considerado de uso exclusivo para pedestres nos feriados e finais de semana. A configuração atual do Calçadão é de 1977. A textura das pedras naturais do peti pavê que tateamos ao caminhar, a visualização do contraste branco e preto, os motivos geométricos lineares de inspiração carioca, de autoria de Bretas e Horner, além das luminárias em forma de araucária já estão incorporadas no imaginário local, e deveriam ser mantidas como componentes de uma paisagem familiar, paisagem da terra natal.
A conquista da acessibilidade é importante, mas, assim como em outras partes do mundo, não deve ser considerada como parâmetro único para intervenção nos espaços públicos memoráveis. Tampouco se ousa sugerir o aumento nas dimensões de placas e letreiros das lojas ou incentivar o uso de megafones no comércio, visando atender grupos com tipos específicos de restrições. Recuperar o petit pavê e as luminárias atuais e, finalmente; inserir uma faixa de concreto moldada in loco, com a largura de um módulo geométrico, junto às grelhas, seria uma das soluções possíveis para contemplar as várias reivindicações.
A paisagem reflete valores culturais. Uma boa cidade deve ser construída lentamente e com profunda reflexão sobre ganhos e perdas, principalmente nas intervenções que afetam o frágil e irreversível patrimônio urbano, a paisagem dos lugares da memória.
HUMBERTO YAMAKI é professor do curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Estadual de Londrina


