ESPAÇO ABERTO - Padres também são cidadãos
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 28 de outubro de 2004
Paulo Fernandes da Silva 
A carta do empresário Abílio Wolff Júnior, publicada pela Folha de Londrina (26/10) com o título ''Padres na política'', não só me deixou perplexo como também a outros que a leram. A crítica que faço é em torno da pouca visão política, religiosa e social que o mesmo demonstrou. Absurdo ainda foi classificar o povo como acéfalo, que segundo o significado etimológico e de acordo com o dicionário Aurélio refere-se a um povo curto de inteligência, estúpido e acefálico. No sentido figurativo pode também significar sem orientador, sem responsável, sem chefe e acéfalo. Tal qualificação é um absurdo. Esqueceu de que faz parte desta porção de povo?
O termo povo é bastante genérico. A colocação foi infeliz e ao mesmo tempo retrógrada para uma época em que vivemos em pleno século XXI. Não sei onde ele encontrou incoerência no grupo de padres por darem sua opinião política e em favor da ética, ou melhor, nos 50% dos padres que antes de tudo são também cidadãos e bebem do mesmo direito e têm a liberdade de opinião.
Direito de opinarem não só em matéria de religião como também politicamente. Antes de tudo são cidadãos, contribuidores do progresso e da ordem social. Homens da justiça, da ética e defensores do povo de Deus. Povo este que na sua maioria encontra-se vulnerável politicamente e que em várias circunstâncias é ludibriado por políticos que ética e moralmente têm prejudicado o povo em outrora.
Mediante a esta situação não tomar uma posição seria um pecado de omissão, daqueles que são considerados representantes, orientadores e chefe de uma porção do povo de Deus. Até porque a Igreja é qualificada pelo concílio Vaticano II de perita em defender a vida e a ética. Para orientar, alertar as pessoas politicamente, não se faz necessário fundar partido político, se filiar à CUT nem tampouco se auto-excluírem da comunhão da Igreja Católica.
Basta ter bom-senso e uma visão holística da realidade política e social. Desculpe-me, mas, isso é um absurdo. Pelo que me consta nenhum padre fez campanha política dentro da Igreja, mas, fora pode exercer seus direitos de cidadãos. Para estar em coerência com a proposta libertadora de Jesus não poderia se calar frente às inverdades e aos fatos históricos fétidos ocorridos em Londrina que no passado teve respaldo nacional. O povo de Londrina, você, eu, nós... não merecemos.
Jesus não foi um político partidário, mas, nem por isso deixou de se posicionar politicamente contra a corrupção. Não vejo incompatibilidade entre política e religião. ''A Igreja... de modo algum se confunde com a sociedade política''. (Vat. II) Mas, estão interligadas, pois tudo concorre para a construção de um povo organizado, em prol do bem comum e da ética. Se ambas realidades são incompatíveis não deveria existir a política partidária. O problema está na boa escolha dos candidatos. Falhas todos têm, quem não tiver pecado que atire a primeira pedra. Dentre o pecado maior e menor espero que o povo opte pelo pecado menor. Basta olhar para o passado histórico. E sei que povo tem memória.
PAULO FERNANDES DA SILVA é filósofo em Londrina


