Aproveito este espaço de debate da Folha para me manifestar sobre o artigo da senhora Flávia Romagnoli quanto à candidatura de padres publicado no dia 21 de outubro. Faço-o amparado no fato de me sentir particularmente visado, por óbvias razões já sobejamente divulgadas. Em respeito à verdade, diga-se que este veículo de comunicação já ofereceu, em diversas circunstâncias, eco aos mesmos que sempre se manifestam com semelhantes cartas, em atitude tão insistente que no mínimo se torna suspeita em suas reais intenções.
A senhorita que assina o documento é uma líder partidária e candidata a vereadora no próximo pleito. Portanto, sua assinatura em nome de uma pastoral de Igreja, de quem exigiremos total isenção, não é de bom tom. Outrossim, aproveita essa pessoa as inúmeras palestras sobre a Alca, em ambientes de Igreja, para encerrar com chave de ouro: ''Padre não pode ser candidato''! Suas conclusões, mais pessoais do que fundamentadas, tem incomodado pela insistência e pelo despropósito.
O mentor e verdadeiro autor do documento é o grupo Fé e Política da arquidiocese. Em nenhum momento fui convidado como sacerdote (há treze anos na cidade) para uma discussão sadia e democrática sobre minhas reais intenções político-partidárias. Apelam eles para o posicionamento do arcebispo que, em setembro último, às vésperas da data-limite de filiação partidária, endossou um texto do regional sul II sobre a candidatura de padres. Não existe nenhuma novidade nesse assunto. Ele é tão antigo quanto a própria Igreja e como já foi escrito aqui neste espaço pelo meu colega padre Paulo - deputado estadual - tem nuances ambíguas consoante à época e à região.
Tivemos bons padres que exerceram ótimos mandatos e tivemos outros que deixaram a desejar. É normal e lógico que isso aconteça. No ano passado eu mesmo disputei uma eleição com a autorização da mesma Igreja que agora endossa o documento. Existem, portanto, jurisprudência e exceções a considerar. Não vejo que o enfrentamento de uma situação espinhosa me torne mais ou menos padre ou indigno de meu ministério como insinuam os senhores e senhoras dessa pastoral. Considero também impróprio que leigos engajados na mesma Igreja que eu, me prefiram ver fora dela do que arrojado padre candidato.
A exigência de ''necessária e imediata punição'' defendida no texto publicado é inusitada e ridícula. Trata-se sim de atitudes mesquinhas que em nada respaldam o que sempre defendemos em termos de evangelização. Eu sou fiel ao bispo, à Igreja, ao povo e à minha consciência. Na hora certa tenho a certeza que o diálogo prevalecerá e o bom-senso dará a tônica aos caminhos que serão trilhados. Qualquer manifestação afoita, condenatória ou julgadora servirá apenas a interesses pessoais ou grupais, mas jamais à verdade histórica que se esconde em episódios como este.
Estou cônscio da responsabilidade que pesa sobre meus ombros ao enveredar pelo inédito, aqui em Londrina. Nunca me furtei a discutir abertamente o que penso e a encarar o novo com otimismo. Não vou aceitar jamais que, em nome de pseudo obediência e fidelidade, se ressuscitem atitudes que eu julgava sepultadas com a própria inquisição. A democracia é um bem inalienável que nos compromete a todos e a luta por ela vale muito suor e lágrimas.
Padre candidato é debate público. É saudável e salutar que os cidadãos se manifestem e opinem. No entanto, os tempos que estamos vivendo, inclusive na nossa cidade, elevam o discurso para outros níveis mais profícuos e pertinentes, conclamando os munícipes a um envolvimento cada vez maior com o destino de sua metrópole. E aí sim! Se o candidato é ou não padre... fará pouquíssima diferença no processo. A essência do mesmo é outra! Estamos falando de ética, de eficiência, de programa de governo e de coerência com esperanças alimentadas.
MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é padre da Arquidiocese de Londrina e presidente do diretório municipal do PPS

mockup