ESPAÇO ABERTO - Paciente: o vilão
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 30 de julho de 2004
Juliano Alcântara Plastina 
Todos os dias somos informados, pelo jornal, TV ou rádio, da caótica situação em que se encontra a saúde pública no Brasil. Já virou lugar comum assistirmos às cenas de pronto-socorros lotados, pacientes internados pelos corredores, pessoas esperando horas a fio para serem atendidas.
Mas por que isto? Eu poderia facilmente citar alguns ''culpados'' e discutir o papel de cada um deles neste quadro, mas vou falar de um vilão que nunca é apontado: o paciente. Todo dia me deparo com pessoas que encaram o pronto-socorro como a solução para todos os seus males, mesmo que não sejam problemas de saúde! Exemplos que posso citar:
O paciente que acorda indisposto e vai no médico para pegar um atestado a fim de escapar do serviço, mesmo não estando doente. É fácil: basta dizer que está com alguma coisa doendo ou coisas do tipo, e o doutor libera o felizardo pelo dia. Já atendi muitos pacientes evidentemente sem problema algum que vêm para a consulta e não querem nem saber da receita: o atestado é que vale a viagem. E mesmo que não consigam, o fato de aguardar 3 ou 4 horas na sala de espera já lhes rende um atestado de comparecimento, tempo este que não estarão trabalhando. O que eles têm a perder? Nada, afinal a consulta é de graça...
O paciente que briga com a família e vai no pronto-socorro com aquela típica crise de ''piti''. O doutor tem que perder tempo ouvindo as mágoas e receitar um ''calmantezinho'', enquanto o resto dos pacientes com problemas de verdade esperam. Melhor do que resolver os problemas em casa, é mais fácil ir ao médico. Afinal, é de graça...
O paciente com problemas crônicos que vai no pronto-socorro resolver em um dia o que não conseguiu em anos. Pronto-socorro é para atendimento de urgência e emergência, e não para aquela rinite de 20 anos, que deveria ser tratada no posto de saúde. Pode demorar, mas indo no pronto-socorro também não vai resolver. Mas, o que custa tentar? É de graça...
Existem muitos outros tipos além destes, que só colaboram com o ''entupimento'' dos hospitais. Posso assegurar que pelo menos um terço das consultas em pronto-socorros do Sistema Único de Saúde (SUS) são desnecessárias, e que se não existissem aliviariam bastante o fardo do sistema. Mas não esqueçamos: o hospital existe para todos, e o paciente deve recorrer a ele sempre que necessário. Só que este deve pensar duas vezes antes de fazer isto, pois pode estar tirando o lugar de alguém que realmente esteja doente.
JULIANO ALCÂNTARA PLASTINA é médico urologista em Londrina


