ESPAÇO ABERTO - Outros trens, outras paisagens
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de março de 2014
Humberto Yamaki 
Recentemente foi anunciada a implantação de canaletas exclusivas de ônibus no canteiro central da Avenida Leste-Oeste em Londrina, a partir de 2018. Lembro que três décadas se passaram desde a elaboração do projeto Redesenho do Antigo Leito e Pátio Ferroviário de Londrina. Trazia uma série de inovações, consideradas avançadas para a época. Para o pátio ferroviário a proposta previa um boulevard, preservando a estação e os barracões ferroviários, definindo uma sequência de praças reforçando o significado do lugar.
Outra parte importante da proposta era a preservação do antigo leito ferroviário como um largo canteiro central na Leste-Oeste. Previa um uso futuro para transporte de passageiros do tipo veículo leve sobre trilhos (VLT). Era um vazio estratégico. O largo canteiro restringia o número de faixas de tráfego da avenida planejada o que permitia limitar a velocidade. Um contraponto às avenidas Tiradentes e Brasília, estas sim de tráfego intenso e de ligação regional.
No projeto de Redesenho, poucas ruas transversais cruzariam o canteiro central, resguardado para uso futuro. Por outro lado, um criterioso levantamento indicava e privilegiava os locais tradicionais de travessias de pedestres. As calçadas das esquinas foram alargadas, aumentando a segurança e coibindo o estacionamento de automóveis e caminhões. Enquanto não se efetivava o transporte de massa, o canteiro central, uma alameda arborizada, seria utilizada como ciclovia.
Inspirações e vontades de cada época fizeram plantar aleatoriamente novas árvores em partes do canteiro, atravessaram inúmeras ruas e construíram edificações, fragmentando o vazio projetado. A Leste-Oeste virava notícia de jornal somente na época da cantoria de cigarras. Espero que a arborização que exibe floradas diferenciadas a cada período do ano seja mantida futuramente.
Voltando ao assunto transporte de massa, talvez pudéssemos avançar ainda mais. Multiplica-se mundo afora o uso de um novo tipo de transporte. É uma novíssima geração de trens leves, híbridos, que funcionam com eficientes baterias de células de íon-lítio. Normalmente utilizam as baterias internas como fonte de energia e podem ser recarregadas nas paradas. Alguns exemplares trazem ainda pneus e rodas de trem, possibilitando circular no asfalto e sobre trilhos. Um transporte do futuro não poluente, com energia limpa e sustentável. Ao adotar um sistema de vanguarda, Londrina poderia ser, aos 80 anos, um exemplo para outras regiões do Brasil.
Andando pelas cidades da região ao longo da malha ferroviária, vemos que os trilhos continuam reluzentes pelo uso e as pontes ferroviárias e estações ainda presentes. Generosos espaços livres no entorno das estações e edificações centrais emblemáticas continuam esquecidas, subutilizadas. Em algumas poucas cidades os trilhos foram retirados do centro, mas a faixa de terreno onde se encontravam as paralelas de aço ainda permanecem íntegras. As cidades novas norte-paranaenses foram implantadas seguindo diretrizes do governo da época para as terras de concessão. Os trilhos vão contornando os limites de grandes bacias hidrográficas abrindo vistas e panoramas. Podemos afirmar que as paisagens do Norte do Paraná foram planejadas para serem observadas, correndo lentamente, da janela do trem.
Com a adoção de um sistema de trens leves na região, poderíamos utilizar também nos finais de semana e ampliar seu uso para o turismo. Preservar paisagens, recuperar o entorno dos trilhos e estações e, assim, regenerar as pequenas cidades. Uma viagem de trem partindo de Londrina avistando Jataizinho, Cornélio Procópio entre outros, atravessar serras, cruzar as corredeiras do Tibagi, Cinzas e Laranjinha é uma experiência inesquecível. Chegar até o Paranapanema. Outros trens, outras paisagens e um novo tempo.
HUMBERTO YAMAKI
é coordenador do Laboratório de Paisagem da Universidade Estadual de Londrina
■ Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres e no mínimo 1.500 caracteres.
Os artigos publicados não refletem necessariamente a opinião do jornal. E-mail: opiniao@folhadelondrina.com.br


