A propósito do chamado Memorial do Pioneiro, algumas considerações devem ser levadas em conta. De antemão é necessário esclarecer a figura institucional do Museu: ele é um órgão suplementar da Universidade Estadual de Londrina (UEL), tendo sua gestão acadêmica a cargo do Departamento de História. Neste sentido, seria de se esperar que qualquer proposição acerca da instituição Museu Histórico, e sobretudo decisões que envolvam as questões do patrimônio, deveriam ser consultados a UEL e o Departamento de História. Mas não foi o que ocorreu.
O deputado Alex Canziani conseguiu uma verba, consultou a Sociedade Amigos do Museu (SAM), que convidou o Clube de Engenharia e Arquitetura de Londrina (Ceal) e decidiram fazer um memorial que perpetuasse o nome das famílias que construíram Londrina, os tais pioneiros. Nada mais típico, e seria tão perfeito quanto simples caso o trâmite da questão não fosse equivocado e caso o seu caráter não fosse ultrapassado.
A Sociedade Amigos do Museu, destarte a sua reconhecida importância, tem notadamente uma visão conservadora acerca da museologia e da história, comportando-se muitas vezes como a dona da memória. Esta maneira de funcionar transforma a história da cidade em um discurso auto-elogioso e acrítico, baseado no mito do pioneiro, tão comum em áreas de ocupação recente. Assim, de um lado temos o pioneiro, com nome e sobrenome, ascendentes e descendentes, e do outro, a massa dos não-vencedores, os anônimos, relegados aos becos da história. Em Brasília, por exemplo, isto redunda na tendência de elevar e mitificar o pioneiro, sobretudo para diferenciá-lo do candango, e aqui em Londrina, como isso se configuraria? Talvez no reconhecimento oficial outorgado pela Câmara Municipal, talvez nos logradouros e seus nomes, mas sem dúvida nenhuma, nas atitudes dos envolvidos nesse imbróglio.
Há um convênio firmado entre a SAM e a UEL, que implica na cooperação técnica, científica e cultural, por isso era de se esperar que os profissionais da história fossem consultados acerca deste Memorial, que estabelecessem os subsídios que sustentassem sua importância. Daí Museu Histórico, SAM e Ceal perceberiam que a Estação Ferroviária, uma edificação pertencente à municipalidade, tem o seu valor histórico por relacionar-se com a memória local, o que em outras palavras significa que, embora charmosa, a estação não tem nenhuma expressão nacional. Mas sendo relevante para a memória local, justificam-se as preocupações com a sua integridade, pois é testemunha das elaborações que os homens constituíram nesta cidade. Esse é o espírito do artigo primeiro d'A carta de Veneza, que objetiva salvaguardar esses tipos de bens culturais.

MARCO SOARES é professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Londrina e coordenador do curso de Arquivologia

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