ESPAÇO ABERTO - Os dilemas da maternidade
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de agosto de 2004
Moacir Costa 
A maternidade é uma das experiências mais emocionantes e marcantes para as mulheres. Pelo menos, para as mulheres dos séculos 20 e 21. Sabe-se que, até o século 18 e boa parte do 19, a relação mãe-filho era um conceito estranho à sociedade. Indiferentes aos filhos, as mães passavam pouco tempo com a prole (que era cuidada por amas-de-leite) e pouco se importavam se os pequenos adoeciam ou morriam. A prática comum era a mulher deixar seu bebê aos cuidados das amas durante os dois ou primeiros três anos de vida da criança. Essas amas, geralmente mulheres que viviam nos arredores das cidades, de classes menos favorecidas, eram a única fonte de cuidado das crianças.
A historiadora francesa Elizabeth Badinter, que pesquisou este período na França, faz um relato rico do comportamento dos pais, em seu livro ''O mito da maternidade'': ''Depois que o bebê era deixado nas mãos da ama, os pais perdiam o interesse em seu destino. O caso de Madame de Talleyrand, que passou quatro anos sem perguntar uma vez sequer pelo filho, não era incomum, exceto que ela, diferente de muitas outras, tinha todos os meios possíveis para fazê-lo, caso quisesse: sabia escrever e seu filho morava com uma ama em Paris''. A infância, dessa maneira, não existia. Na Paris de 1780, segundo Badinter, das 21 mil crianças nascidas, apenas mil não foram enviadas para as amas-de-leite, mulheres que assumiam o fardo por dinheiro e na maioria das vezes mantinham os bebês em precárias condições.
Hoje, a visão de que a criança tem um valor importante e deve ser protegida e educada pela família, se choca com o comportamento de séculos passados. E a maternidade, antes desconsiderada, ganhou um peso fundamental. O amor materno é louvado e a mulher-mãe ganha outro status. Estamos no século 21, em que a mulher já não precisa queimar sutiãs para mostrar que tem valor e que pode competir de igual para igual com os homens, em todos os campos. Mas, ao mesmo tempo, vivemos ainda alguns dilemas antigos.
As mulheres estão crescendo em todas as profissões, e vêm galgando altos postos na carreira. Também se esforçam para se realizar como mães, esposas, donas-de-casa. Mas, agora carregam uma culpa extremada: sentem-se mal quando trabalham muito e não conseguem dar muita atenção aos filhos, e também se sentem angustiadas quando abdicam do trabalho para ficar mais com a prole. Na verdade, qualquer que seja a opção (trabalhar mais ou ficar mais com os filhos) gera culpa, muita angústia, entre as mulheres. O lado bom é que os homens têm assumido, aos poucos, sua responsabilidade de educar e cuidar dos filhos e investem cada vez mais, dedicando mais tempo para permanecer com a família.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo


