Na edição de uma das revistas de maior circulação no Brasil, na semana passada, apareceu uma edição especial com o título: ''Eu decido meu fim''. Não pretendo nem provocar, nem muito menos agredir ninguém. Quero ser uma espécie de voz de tantos que em seus leitos ou desde os seus futuros leitos terminais pensam diferente.
Com o passar do tempo, algumas pesquisas, levantamentos e análises são feitas de tal forma que os resultados aparecem como algo definitivo, como se toda a população estivesse pensando da mesma forma. O direito à objeção é válido. Dissentir não é produto de ingenuidade ou mau caráter. Como seres éticos e morais, temos o direito de afirmar mais uma vez que o consenso não é sinônimo da verdade moral. Por isso, mesmo decidi escrever o meu testamento vital. Pode ajudar você a pensar e refletir sobre este fato.
Eu José Rafael Solano, diante de uma situação de doença grave em progressão e fora de possibilidade de reversão, apresento minhas diretrizes antecipadas de cuidados a vida. Se chegar a padecer de alguma enfermidade manifestamente incurável e o sofrimento chegar a ser insuportável, quero oferecê-lo por todos aqueles que por diversas razões me amaram nesta vida e me continuam amando no estado em que me possa encontrar.
Mesmo que esta dor me torne irracional e incapaz, quero pedir para que aqueles que sempre se mostraram meus amigos e amigas, não me abandonem; não se afastem de mim. Ainda que não possa possivelmente compreender, gostaria que cantassem que chorassem e que tivessem tempo para brincar comigo.
Minha autonomia não reside na minha razão; minha autonomia se encontra no coração que também é racional. Faço constar, com base no princípio da dignidade da pessoa humana e da vontade, que aceito a contingência da minha vida como um dom; aceito as intervenções de médicos e pessoas humanas, que mesmo sabendo que a ciência não tem mais a dizer ou que as terapias em nada possam ajudar, eles decidem continuar ao meu lado.
Estou disposto a receber cuidados paliativos que não são outra coisa que a viva expressão de um gesto humanitario. Sou completamente ciente de que não posso fugir da dor, pois faz parte da minha condição humana, mesmo que tente amenizá-la, mesmo que possa superá-la acredito que a dor produz esperança e sempre traz benefícios.
Se por algum motivo tivesse que ir para a UTI, quero ali receber atenção e ternura, pois admiro o pessoal que desde a medicina ou a enfermagem reconhecem que este lugar é um espaço para intensificar todo tipo de ajuda com quem se encontra necessitado.
Não quero ser eu quem determine o tempo da minha doença. Seja lá o tempo que for, seja uma doença difícil longa ou rápida quero ser respeitado como pessoa, pois o paciente é pessoa. Quero receber todo tipo de reanimação, alegria conforto. Quero que quando chegue a hora de partir deste mundo seja respeitada minha condição, minha decisão e especialmente seja feito de tudo para que ao partir possa levar comigo a melhor das lembranças de todos aqueles que comigo, fizeram parte deste mundo.
A ortotanasia é o respeito e o correto uso das terapias que me preparam para um dos momentos mais cruciais da minha vida.

JOSÉ RAFAEL SOLANO DURÁN é doutor em Teologia Moral e Bioética e sacerdote da Arquidiocese de Londrina

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