ESPAÇO ABERTO - Ópera ao vivo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 05 de novembro de 2004
Fernanda Jiran 
Ópera é um espetáculo grandioso que exige teatro e palco adequados, belas e potentes vozes educadas para tal, e uma estupenda infra-estrutura envolvendo centenas de especialistas em várias modalidades: orquestra completa, grande coral, bailarinos, figurinos (geralmente luxuosos), produtores, diretores, regente e bastante dinheiro, pois o empreendimento é caro. Por esses motivos, as óperas só acontecem nos grandes centros culturais e econômicos. No Brasil, apenas em algumas capitais. Daí, a surpresa para o público londrinense: uma ópera ao vivo, no Ouro Verde. Convenhamos que esse teatro está longe das exigências necessárias para a montagem de uma ópera: os camarins são exíguos e se ligam ao palco por uma escada quase perigosa, não há fosso para a orquestra e a acústica é inadequada, sobretudo para a voz.
Mas, um grupo de idealistas ligado à ''arte maior'' montou um projeto e levou-o a cabo, com a verba do Promic (Programa Municipal de Incentivo à Cultura) - muito bem empregada, aliás. O que vimos no Ouro Verde na noite da estréia (28/10) foi um espetáculo sumamente agradável. Como o diretor artístico é ligado à música antiga, a ópera escolhida tinha que ser do período barroco: ''La Libérazione di Ruggiero dall'isola di Alcina'', uma das três óperas sobre a bela feiticeira Alcina. Só que esta apresenta uma curiosidade: foi escrita por uma compositora, uma mulher - Francesca Caccine (1587-1640) -, coisa raríssima em música erudita. Foi uma boa escolha: ópera curta, música leve, distante dos arroubos líricos e orquestrais dos séc. XVIII e XIX. Um visual muito bonito e segura direção de cena.
O coro esteve excelente; os solistas se mostraram competentes em seus papéis, tanto no que se refere à voz quanto à performance. As ''Damigeli'' se destacaram pela graciosidade, e outro destaque deve ser feito para a mezzo-soprano que encarnou Melissa. Não citamos nomes, pois a falta de um libreto mínimo ou um simples programa (um dos pontos negativos) não nos permite mencioná-los. Sem o libreto, a produção trouxe-nos uma apresentadora que, numa síntese longa da história - meio lida, meio dramatizada - mais confundiu do que esclareceu o atencioso público. Um outro problema já era esperado: como o local para os músicos foi um ''arranjo'', as lâmpadas que iluminavam as partituras incomodavam a platéia do primeiro setor do teatro, sobretudo a luminária da estante do regente, que era frontal.
Excetuando os pontos negativos citados, a ópera agradou sobremodo o público na noite da estréia. Aliás, um público atencioso e educado (bem diferente de uma parte do público ''entra-e-sai-e-conversa'' das apresentações da Orquestra Sinfônica), e que aplaudiu com gosto ao final do espetáculo. Parabéns aos cantores, aos músicos, aos diretores de cada setor, e a todos os que trabalharam para que o espetáculo se concretizasse. E que venham outras óperas!
FERNANDA JIRAN é produtora e apresentadora do programa ''Para gostar de ópera'' da Rádio Universidade em Londrina


