ESPAÇO ABERTO - Opção pela vida
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 03 de maio de 2004
Tarcísio Vanderlinde 
Num texto que intitula ''A humanidade no século XXI: a grande opção'', Fábio Konder Comparato faz uma instigante análise sobre o tempo presente. O texto, originalmente escrito no primeiro semestre do ano 2000, para o Fórum Social Mundial daquele ano, soa como uma profecia se considerados os acontecimentos mundiais que se desencadearam a partir daquela data. O objetivo do autor é mostrar que o presente estado de coisas que chama de ''avania social'', resulta do divórcio recorrente entre técnica e ética no curso histórico, o que leva a permanência do déficit ético e da carência moral tão gritantes da atualidade.
A partir do desastre da 2 Guerra Mundial surge uma primeira proposta de reorganização planetária que levou a um período de relativa tranquilidade que diversos autores chamam de ''trinta anos gloriosos''. Porém a partir dos anos 70 do século passado, começa a ocorrer uma nova desorganização que na virada do milênio passa a ser entendida como a ''ruína dos grandes ideais''. Diante da opção que considera necessária, o autor é levado a fazer a seguinte indagação: teremos perdido definitivamente a grande batalha para a preservação da dignidade humana?
O homem se encontra diante das possibilidades de apenas especular ou intervir. A intervenção é recomendada e deveria se dar a partir da diagnose onde existe a possibilidade de introdução de um juízo ético (diante das intervenções sem juízo que se vê em muitos lugares). Pois mesmo que o diagnóstico aponte para uma fase de grande desordem, talvez sem precedentes na história humana, haveria ainda a opção de traçar o que o autor nomina de ''prognose evolutiva''.
Em sua versão atual, o capitalismo provocou uma inversão ontológica entre o capital e o homem. Ontológico vem de ontologia, ciência do ''ser'' enquanto ''ser''. Sendo assim, de sujeito, o homem passou a mero objeto. Na verdade, o capitalismo contemplou alguns homens em detrimento dos demais. Além disso, a prática capitalista é abrangente culminando atualmente com a degradante propriedade sobre matrizes da vida, talvez sua fronteira mais perversa. Tecnicamente a pessoa pode hoje viver mais. Mas as condições sócio-econômicas permitem que apenas um seleto grupo possa usufruir o benefício. A vida não poderá ser ''comprada'' por todos. Talvez o único consolo que nos resta, é saber que um dia morreremos todos de qualquer forma.
O mundo, portanto, encontra-se numa encruzilhada e não terá muito tempo para fazer sua opção, pois o mapa que aí está desenhado parece não servir mais para a humanidade. Para que o apocalipse não aconteça, Comparato defende a recuperação do Estado, contrapondo-se ao discurso do ''Estado Mínimo'', porém, verdadeiramente democrático em que se garanta a efetiva participação da sociedade civil. De acordo com Comparato, com o controle da técnica, a humanidade construiu-se de forma tão desigual que a situação pode conduzir ao precipício, porém o homem, ainda teria as faculdades de optar pela vida. É preciso saber se é isso que ele deseja.
TARCÍSIO VANDERLINDE é professor da Unioeste no Campus de Marechal Cândido Rondon


