ESPAÇO ABERTO - Onde começa o fracasso?
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sexta-feira, 12 de março de 2004
Davrison de Abreu Anselmo 
O ensino das ciências, especialmente da matemática, na maioria das escolas enfrenta uma crise que se não for a maior de todos os tempos é uma delas. Uma das principais causas do problema é a falta de interesse por parte dos alunos. A outra, que não deixa nada a desejar à primeira, é a falta de interesse e preparo de nós professores que atuamos nessa cadeira.
A tênue barreira que existe entre o sucesso e o fracasso do aprendizado da matemática é a contextualização. A falta de ligação entre o que se aprende dentro da escola e o que se pratica fora dela. Um bom exemplo do que foi dito é do aluno que não carrega em si o dom da álgebra nem da lógica formal, porém sabe fazer troco, calcula porcentagem, compra, vende, etc, e mesmo assim, é tido como um aluno fraco, desinteressado, sem perspectiva de melhora e candidato à reprovação.
Conheci um menino que era um caso sério. Mal conseguia escrever com desenvoltura, apesar de estar na 7 série. Ele não conseguia, sequer, resolver equações de primeiro grau com uma variável. Era muito apático e introspecto. Um dia, bateram palmas em meu portão e, pra minha surpresa, era ele, com uma cesta de verduras no braço. Ele ficou ''meio'' sem graça e, todo tímido, ofereceu-me os seus produtos. Naquele momento, eu pensei: ''É hoje a prova anual desse aluno''. Comprei alguns pés de alface, um maço de beterrabas e outro de agrião e tudo custou R$ 2,20. ''Só de teste'', paguei com uma nota de R$ 5. Ele enfiou a mão no bolso e tirou algumas notas e moedas e rapidamente me devolveu o troco corretamente.
Eu ainda não estava satisfeito e perguntei se o que ele vendia era próprio ou se trabalhava por comissão. Quando me respondeu que era por comissão eu quis saber qual era a porcentagem. Ele, sem titubear, me respondeu: vinte e cinco por cento. Bem, perguntei: se você me vendeu R$ 2,20, quanto conseguiu ganhar com o nosso negócio? ''De primeira'' ele respondeu, sem usar calculadora ou lápis e papel: R$ 0,55. Eu, meio emocionado, sorrindo lhe disse que ele já estava aprovado em matemática naquele ano. Claro que ele ficou surpreso. Sorriu olhando para baixo, me agradeceu pela compra e saiu sem perguntar mais nada, como era de seu costume.
Alguns meses depois, durante o conselho de classe final, mesmo com todas as dificuldades apresentadas, ele foi aprovado, pelo simples fato de ter conhecimentos específicos muito maiores, que a maioria dos mestres que ali, naquele momento, estavam reunidos.
Onde começa o fracasso do saber matemático? Exatamente no desprezo à contextualização, a etnomatemática, ao conhecimento prévio e à centralização no ensino de cálculos mecânicos e totalmente desprovidos de significados.
DAVRISON DE ABREU ANSELMO é professor em Ibaiti


