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Londrina

Opinião

m de leitura Atualizado em 03/05/2022, 08:37

ESPAÇO ABERTO - Onde anda o Primeiro de Maio

O Brasil de 2022 evidenciou carência de gente nas ruas na festa do trabalho e revelou total falta de motivação ao ato cívico

PUBLICAÇÃO
terça-feira, 03 de maio de 2022

Padre Manuel Joaquim Rodrigues dos Santos
AUTOR autor do artigo

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Londrina continua nos surpreendendo ao convocar manifestações, defendendo a liberdade de expressão no Dia do Trabalho! Defender este valor, sob a forma de ataque ao STF! Ora, a plausibilidade concentrar-se-ia nas conquistas dos trabalhadores ou em suas reclamações, como acontece por esse mundo afora. Isso se achássemos o Brasil, é claro, não tão distópico!

A última reforma trabalhista esgaçada, as lesões escancaradas aos direitos de quem trabalha formalmente, o desemprego, a fome, a miséria e as situações precárias de quem labuta na informalidade. Este pacote de maldades laborais que geram lágrimas e infelicidade, seria sim, o combustível adequado para a inundação de nossas ruas e praças. Assim nos diz a história! Naquele remoto dia primeiro de maio de 1886, milhares de trabalhadores dos Estados Unidos foram às ruas das maiores cidades do país, como Nova York e Chicago, para reivindicar a redução da carga horária máxima de trabalho por dia, de cerca de 12 horas na época.

No entanto, como um equívoco nunca vem só, temos mais uma aberração: defendendo a liberdade absoluta põe-se em causa a liberdade enquanto tal, que é um grande valor, mas relativo. Para quem menospreza o regime democrático e busca se consolidar num sistema autocrático, a dita liberdade de expressão com cara de absoluta é a liberdade do uso de armas, a liberdade do indulto aos amigos do rei, a liberdade da pessoalidade em decretos e a liberdade de deputados criminosos fazerem parte de comissões essenciais no Congresso, como a CCJ! Ou então, quiçá a liberdade de portar armas e dispará-las em aeroportos!

A denúncia da perseguição aos autoproclamados paladinos da liberdade, como o presidente e os seus asseclas, não passa de uma falácia! Uma estratégia que revela a perversidade de quem usa argumentos positivos para acentuar o seu contrário! Este complexo de perseguição por parte de instituições democráticas mal consegue ocultar o gabinete do ódio e uma máquina autoritária de ataque ao próprio estado de Direito! É um governo que está diuturnamente no lado obscuro da república, ao ignorar a fome e o desemprego, as mortes pela Covid, os estupros de adolescentes indígenas e ao tentar tumultuar o processo eleitoral, quem sabe visando se beneficiar ou envolver de forma imprópria as forças armadas!

O Brasil de 2022 evidenciou carência de gente nas ruas na festa do trabalho e revelou total falta de motivação ao ato cívico. Estamos exauridos e perigosamente apáticos. Nem para defender uma pauta nobre, que provocasse uma emancipação do país ao patamar civilizatório confortável! Numa agenda assim, não poderia faltar a concertação nacional que viabilizasse em última análise uma campanha eleitoral decente e aberta à proliferação de ideias profícuas e pertinentes, gerando verdadeiras alternativas para os eleitores. Contudo, ainda usamos estes dias históricos que memorizam lutas e sacrifícios para colocarmos na rua palavras de ódio e de cinismo, defendendo pseudo valores!

Cresceu a insatisfação com o sistema democrático na América Latina. A região tem uma média de 49% de apoio à democracia. Os números mais graves de baixo apoio à democracia são encontrados em Honduras (30%), Guatemala (37%), Brasil (40%), México (43%) e El Salvador (46%) (Latinobarômetro (2021)). O relatório afirmou que 31% dos latino-americanos apoiariam um governo militar para substituir um governo democrático e 51% não se importaria “que um governo não democrático chegasse ao poder, se resolvesse os problemas”. Eis a questão!

Esta sim, seria uma urgente pauta para bandeirarmos as nossas cidades com gritos ensurdecedores! Mas, permanecemos enredados na miséria do nós contra eles!

Padre Manuel Joaquim Rodrigues dos Santos, Arquidiocese de Londrina

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