O sociólogo Octavio Ianni faleceu no último dia 4, em São Paulo, aos 77 anos de idade. Representante de uma das mais fecundas safras de intelectuais brasileiros, Octavio Ianni foi um crítico audaz do imperialismo norte-americano e um inquieto e sempre criativo estudioso da cultura mundial. Ao lado de Florestan Fernandes, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr. e Francisco de Oliveira (ainda vivo!), Ianni presenteou a sociedade brasileira com uma infinidade de análises lúcidas, sérias e comprometidas com a transformação da realidade brasileira. Foi, sem dúvida alguma, uma grande voz, uma figura de alta envergadura conceitual e discursiva, um mestre para tantos mestres, um emblema de toda uma geração de sociólogos e intelectuais ocupados com a compreensão e a mudança do Brasil.

Conheci Octavio Ianni, com ele conversei e até tomei um café nos corredores da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), no final de 1998. Falamos de futebol, das eleições que haviam transcorrido havia pouco e eu nem sabia estar diante do autor de livros que tanto me influenciaram, como ''Industrialização e Desenvolvimento Social no Brasil'' (1963), ''A Luta pela Terra'' (1978), ''Sociologia da Sociologia'' (1986), ''A Idéia de Brasil Moderno'' (1994) e ''Enigmas da Modernidade-Mundo'' (2000). Depois de alguns instantes, quando se despediu de mim por ter de haver-se com um compromisso pessoal, comentei com a minha professora aqui de Londrina que lá estava comigo quão simpático era aquele senhor sereno e extremamente agradável que conversara comigo durante alguns instantes. Para meu espanto e felicidade, embora eu tenha me sentido um tremendo incauto, a professora me informava de que eu havia trocado alegres idéias com Octavio Ianni. De tão simples, não se deixou transparecer; avesso à publicidade sem sentido, foi meu interlocutor em assuntos amenos, frugais, tais quais futebol, eleições...

Inseridos numa realidade tão complexa, repleta de problemas e desafios, sentiremos falta das análises e investigações de Octavio Ianni. Sem ele, sempre nos faltarão a palavra sensata e a doce heterodoxia de seus conceitos e postulações intelectuais. A nós, sociólogos de uma geração que se formou sem a presença de grandes mestres do pensamento social brasileiro, a ausência se fará ainda mais difícil, marcada pela herança de profundas cicatrizes. Consola-me, como representante dessa geração de poucos mestres, ler, reler, tresler a obra de Ianni, e nela saudar a possibilidade sempre presente de uma análise crítica implacável, mas convergente, aglutinadora de sonhos e esperanças num mundo melhor. Octavio Ianni, muito obrigado!

MARCO ANTÔNIO ROSSI é sociólogo, mestre em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Londrina e professor na Metropolitana/IESB

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