ESPAÇO ABERTO - O voto mais consciente
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de agosto de 2004
Gaudêncio Torquato 
O Brasil conhece eleições desde 1532, quando se elegeu o Conselho Municipal da Vila de São Vicente (SP). A tradição de votar, portanto, remonta aos primórdios de nossa História, apesar de havermos conhecido eleições diretas apenas em 1881, por força da Lei Saraiva. Muita coisa mudou entre as eleições municipais regidas pelas Ordenações do Reino, que vigoraram até 1828, e as campanhas ''marquetizadas'' deste ano.
Houve tempo em que não votavam escravos, mulheres, índios e assalariados. Política era coisa de rico. (Será que não continua assim?) Passamos por pelouros, bolas de cera onde eram colocados os votos, entramos nas fases das urnas de madeira, de ferro e de lona, até chegarmos às atuais urnas eletrônicas. Cacarecos do passado resistem, como o voto de cabresto, que continua a engordar currais eleitorais de alguns grotões. Entre 20% e 25% da população eleitoral de 116 milhões ainda recebem influência do mandonismo regional.
O que ainda não se faz fortemente presente na cultura dos fundões é o pensamento crítico que eleitores de centros maiores têm adquirido, em função de promessas não-cumpridas por políticos. É a cobrança, sem nenhum compromisso com a lhaneza, que permite a uma vendedora de loja, em São Paulo, perguntar a Paulo Maluf por que não troca o slogan de sua campanha deste ano, ''o bom prefeito está voltando'' para o famoso ''rouba, mas faz''. O gesto determinado da eleitora denota um dos traços mais avançados da nova cultura que se espalha pelo território, em contraponto à cultura de passiva aceitação da verborragia dos políticos. Trata-se do conceito de autogestão técnica, pela qual os eleitores sabem o que exigir de candidatos e como enxergam seus perfis. Essa atitude balizará o comportamento de parcelas significativas do eleitorado.
Nos últimos 20 anos, as massas têm perdido a motivação, fugindo das ruas para dar lugar a movimentos específicos, na esteira das ações de resultados imediatos. Ingressamos no ciclo da funcionalidade e convivemos com atores cada vez menos interessados em pensar a política como missão. Dentro deste figurino se desenvolve a campanha municipal. A fulanização ocupa espaços centrais, mostrando que o País se torna celeremente um território político de proprietários. O ideário sai de partidos e entra no corpo de entidades não-governamentais. Partidos só valem para somar espaços na mídia eleitoral. A ''prostituição'' partidária chega ao clímax, com a maior salada de siglas já produzida em todos os tempos. Para completar o menu, 400 mil candidatos a vereador e a prefeito parecem moldados em forno de clonagem, tão grande a semelhança da gagueira mental.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político


