Em nosso país, a partir do momento em que se instituiu o voto obrigatório para os cidadãos maiores de 18 anos, o sentido da obrigatoriedade passou a ser um tema pouco vago, pelo fato dos brasileiros não saberem como exercer a sua cidadania, e pouco discutido porque a luta do dia-a-dia para manter-se de pé diante das adversidades sociais, não permite que o brasileiro desenvolva o sentimento pátrio.
Não é a obrigatoriedade regulada por lei que incomoda o cidadão brasileiro, é a ausência de equilíbrio político, social, humano em que vivemos. Construir um destino próprio que preserve o bem comum, sendo participante ativo, é exercer a cidadania. Somos nós, cidadãos, que formamos nossas leis, nosso governo, que por meio de representantes refletimos todos nossos desejos de melhores mudanças. É defender nossos direitos individuais, lutar contra as injustiças impostas por uma sociedade opressora que submete a população a uma disciplina moral ou social equivocada (Rousseau). É a nossa tomada de consciência, da liberdade que nos pertence, do livre arbítrio da escolha. E isto, a Constituição Federal de 1988, diz que ''todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos...''.
Eleger significa escolher quem irá representar o poder de decisão dos cidadãos e não de interesses individuais. É isso que dá legitimidade ao voto, é a força emanada pela escolha de cada um de nós, não permitindo que o poder se concentre nas mãos das elites políticas que nos deixam longe de um sistema político e uma sociedade justa. Contudo, o que ainda falta ao brasileiro, é exercitar o que é seu de direito - o voto - não como uma imposição legal, mas sim como um direito que deve ser cumprido como forma de participação social, política, como cidadão.
Sabemos que é importante para o país exercermos nossos direitos, no entanto, falta saber como poderemos tomar consciência disto, a fim de legitimar nossas ações. Nossa realidade política e social não nos permite ainda votarmos com sabedoria, com reflexão, porque na maioria das vezes, optamos pela decisão de momento, nivelando pelos deméritos de cada candidato e não por seus méritos.
A modernidade política e a cidadania consciente virão num tempo em que cada cidadão compreenda seu papel na sociedade e na política. Porém, para que isto se torne realidade, precisamos arrebanhar conhecimento, consolidar a educação no país, e isto estará visível quando o voto não for mais uma imposição de lei, mas um desejo de mudança. Crescimento individual, coletivo, humano, dentro de uma sociedade consciente, culturalmente adaptada à realidade que a cerca, nos trará o bom senso para discernir o certo do errado.

PAULO CESAR GONÇALVES VALLE é advogado e professor universitário em Londrina

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