A história sempre foi marcada por crises no mundo do trabalho. O medo de que as máquinas pudessem vir a tomar o lugar dos trabalhadores já era sentido em 350 a.C. quando Aristóteles perguntava: O que será dos servos quando a lira tocar sozinha? Mais de dois mil anos se passaram quando no século19 os chamados luditas destruíam máquinas que vinham substituir mão de obra braçal.

A utilização de máquinas em larga escala produziu inicialmente desemprego no campo e forçou os trabalhadores a migrarem para as cidades em busca de oportunidades nas industrias nascentes. Quando as máquinas passaram a tomar os empregos nas fábricas, houve um período de forte desalento, até que os trabalhadores passaram a ser absorvidos pelo setor de serviços, novo grande empregador. Esse parecia ser o roteiro do emprego: a tecnologia tirava empregos num primeiro momento, aumentando a produtividade via mecanização, expandia a riqueza e gerava excedentes para investir em novos campos emergentes que passavam a absorver a mão de obra anteriormente excluída.

Contudo, a realidade atual parece ser sui generis. Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee, pesquisadores do MIT , comprovam por meio de dados históricos as particularidades do nosso tempo. A historia tem seguido um percurso mais ou menos linear, em que quanto mais a produtividade aumentava num período, maior o crescimento de empregos no momento seguinte. Todavia, no final do século 20 e inicio do 21 as coisas mudaram. A produtividade passou a crescer numa velocidade muito maior do que a criação de novas vagas. Esse fenômeno é particularmente visível nos países mais desenvolvidos, em que a pujança econômica não é acompanhada por empregos na mesma proporção.

É certo que empregos surgem em novas áreas, porém são em numero infinitamente menor do que os postos eliminados. A microeletrônica, a robótica e a inteligência artificial desenvolvem máquinas que pensam, que aprendem, executam várias tarefas ao mesmo tempo, são capazes de se auto-reproduzir, apresentam comportamentos estáveis, não fazem greve e nem precisam ser motivadas, não se rebelam e nem têm problemas de relacionamento. É o sonho taylorista de estabilidade e previsibilidade se tornando realidade.

A OIT (Organização Internacional do Trabalho) contabiliza 200 milhões de desempregados em todo o mundo e estima que 1,4 bilhão de trabalhadores (cerca de 40% da população economicamente ativa) ocupando sub-empregos, funções precárias e informais, número que aumenta 35 milhões a cada ano. Hoje em dia já há condições para que uma fábrica de automóveis possa ser até 95% automatizada. O trabalho humano passa a ser demandado apenas para atividades de criação, gestão e supervisão das máquinas, e pode ser eliminado em atividades operacionais , historicamente os maiores empregadores.

Entre o vazio de alternativas, duas vêm ganhando força: 1- Reduzir a jornada de trabalho média para que mais pessoas possam trabalhar – trabalhar menos para trabalharem todos; 2- . Instituição de uma renda de cidadania universal, garantida pelo Estado, capaz de assegurar um mínimo existencial. Alguns especialistas associam essa medida à taxação dos próprios robôs ou introduzir um imposto mundial sobre movimentação financeira (taxa Tobin). A renda básica universal tem como propósito a redução da precarização do trabalho e que o giro, consumo – produção não seja interrompido e coloque o sistema em colapso.

Como alerta Yuval Harari: talvez no século 21 as revoltas populares sejam dirigidas, não contra uma elite econômica que explora pessoas, mas contra a elite econômica que já não precisa delas. Talvez seja uma batalha perdida. É muito mais difícil lutar contra a irrelevância do que contra a exploração.

Luís Miguel Luzio dos Santos, professor de socioeconomia da UEL (Londrina)

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