Não são as diferenças naturais e culturais que, na América Latina, constituem a base do sistema de dominação, mas apenas a riqueza que assegura acesso a armas mais poderosas. Quem tem mais força, tem mais razão; quem dispõe de mais poder, está revestido de mais autoridade. Pois não foi a razão cínica que possibilitou aos EUA anexarem a seu território, entre 1836 e 1848, vastas extensões do México, como o Texas e a Califórnia, e todo um país soberano como Porto Rico (1898)?
A utopia que a dominação neocolonialista disseminou no continente é a do ''american way of life'', fabricada nos estúdios de Hollywood. Mas, como sonhar com tão estreita porta? Como subir tantos degraus se nos faltam pernas e mãos? É proibido sonhar com um mundo onde não haja opressores e oprimidos e no qual as diferenças sexuais, raciais, étnicas e religiosas não estabeleçam desigualdades entre pessoas? Platão, Tomás Morus, Campanella e Marx, cada um a seu modo, sonharam com esse mundo utópico.
Mas sua viabilidade histórica surgiu no século XIX com o socialismo, cujas propostas chegaram à América Latina no início do século XX. Aqui as idéias socialistas foram difundidas pela militância de anarquistas e comunistas. Porém, não eram as doutrinas políticas e os receituários ideológicos que ressoavam no coração sequioso desse povo que busca alento em Nossa Senhora, seja ela de Guadalupe, de Aparecida, de Los Angeles ou do Cobre; chamem-na de Patrona, Puríssima, Imaculada ou Mãe de Deus. Só as forças políticas que souberam incorporar os sentimentos religiosos do povo às suas propostas libertárias lograram fazer revoluções na América Latina: México (1912), Cuba (1959) e Nicarágua (1979).
Dizem que agora chegamos ao ''fim da história''. A única opção que resta é entre capitalismo e capitalismo. Não matam os nossos sonhos, apenas ensinam que não são abstratos nem se situam na ponta do tempo. São concretos e palpáveis, situam-se em nosso espaço e custam dinheiro. Só eles devem ser objetos de nosso desejo: um par de tênis, uma bicicleta, um carro novo, uma casa de campo, férias no exterior e dinheiro no banco.
O fim da história coincide com o advento das prateleiras. As catedrais góticas ficam agora à sombra dos shopping centers. Hoje, o sonho já não precisa ser conquistado nem exige heroísmo. Talvez um pouco de sacrifício para ser comprado. E a ascética econômica, sob promessa de glórias futuras, é especialidade do FMI.
O sonho não depende de princípios, mas de interesses. Não nos exige dignificar a função que ocupamos; ao contrário, somos considerados pela grife que portamos. Saem os ideais, entra o mercado. Em meio a tanta competitividade, fica bem falar em solidariedade, como convém tecer loas à democracia para que a maioria não desconfie que se encontra excluída das decisões e das realizações do poder.
FREI BETTO é escritor

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